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Sobre quando as mulheres queriam sexo muito mais que os homens

por Tággidi Ribeiro

Gentes, abaixo vai minha tradução do artigo When Women Wanted Sex Much More Than Men - and how the stereotype flipped, cujo original vocês podem ler clicando aqui. O texto é longo e será dividido.

No século XVII, um homem chamado James Mattock foi expulso da Primeira Igreja de Boston. Seu crime? Não foi usar um linguajar chulo ou sorrir no Sabbath ou qualquer dessas coisas que poderíamos pensar que os puritanos desaprovariam. Em lugar disso, James Mattock recusou-se a fazer sexo com sua mulher durante dois anos. Embora a comunidade de Mattock claramente visse como imprópria sua abstinência, é bem provável que o sofrimento de sua esposa estivesse em jogo quando a igreja decidiu afastá-lo. Os puritanos acreditavam que o desejo sexual era parte normal e natural da vida humana de homens e mulheres (desde que fosse heterossexual e restrito ao casamento), mas que a mulher queria e precisava de sexo muito mais que o homem. Um homem poderia escolher abrir mão de sexo com relativa facilidade, mas seria muito mais difícil para uma mulher ser privada do ato sexual.
Hoje, contudo, a ideia de que homens são mais interessados em sexo que mulheres é tão forte que parece quase não valer a pena falar sobre ela. Seja por causa do nível de hormônios ou pela "natureza humana", homens precisam fazer sexo, masturbar-se e ver pornografia de um jeito que simplesmente não é necessário para as mulheres, de acordo com o senso comum (e se existem mulheres que acham essas atividades todas muito necessárias, provavelmente elas têm algum problema). Mulheres precisam ser convencidas, persuadidas, mesmo forçadas a se 'entregar', porque a perspectiva de sexo não é atrativa por si só - tal é o estereótipo popular. Sexo, para as mulheres, comumente é alguma coisa não muito gostosa mas necessária que se faz para obter aprovação, suporte financeiro ou manter um relacionamento estável. E desde que as mulheres não são escravas de seus desejos como os homens, elas são responsáveis por assegurar que eles não 'se aproveitem' delas.

A ideia de que os homens são naturalmente mais interessados em sexo que as mulheres é ubíqua, razão pela qual é difícil imaginar que as pessoas alguma vez já pensaram diferente e, mais ainda, que o fizeram durante a maior parte da história do Ocidente: da Grécia Antiga ao começo do século XIX, julgou-se que as mulheres eram os demônios pornográficos e loucos por sexo. Em um mito grego antigo, Zeus e Hera discutem sobre quem tem mais prazer no sexo, se homens ou mulheres. Os deuses pedem ao profeta Tirésias, a quem Hera havia transformado certa vez em mulher, que ponha fim ao debate. O profeta responde: "Se o prazer sexual fosse dividido em dez partes, apenas uma pertenceria ao homem, e nove pertenceriam à mulher". Mais tarde, as mulheres seriam consideradas tentações cuja perfídia herdaram de Eva. Sua intensidade sexual era vista como um sinal de moralidade, razão e intelecto inferiores, e justificava estreito controle por parte de maridos e pais. Os homens, que não eram tão consumidos pela luxúria e que tinham capacidade superior de autocontrole, perfaziam o gênero mais naturalmente adequado a manter posições de poder e influência.
No começo do século XX, o médico e psicólogo Havelock Ellis talvez tenha sido o primeiro a documentar a mudança ideológica que tinha se instaurado recentemente. Em um trabalho de 1903, Estudos em Psicologia do Sexo, ele cita uma extensa lista de fontes históricas antigas e modernas que iam da Europa à Grécia (sic), do Oriente Médio à China, todas muito próximas quanto à ideia do desejo sexual feminino dominante. No século XVII, por exemplo, Francisco Plazzonus chegou à conclusão de que o parto muito dificilmente seria valorizado pelas mulheres se o prazer delas no sexo não fosse muito maior que o dos homens. Montaigne, Ellis aponta, considerou as mulheres "incomparavelmente mais aptas e mais ardentes no amor do que os homens, e que essa arte elas sempre conhecem mais a fundo que eles e podem ensiná-los, pois é uma disciplina que nasce em suas veias". Mas nem a época de Ellis havia sido tomada inteiramente pela ideia de que mulheres são desprovidas de desejo sexual. Contemporâneo de Ellis, o ginecologista austríaco Enoch Heinrich Kisch foi longe a ponto de afirmar que "O impulso sexual é tão poderoso nas mulheres que em certos períodos de sua vida essa primitiva força domina toda a sua natureza." 
Os tempos estavam claramente mudando, contudo. Em 1891, H. Fehling tentou desbancar a sabedoria popular: "É de todo falsa a ideia de que as moças tenham tão forte o desejo pelo sexo oposto quanto os rapazes... O surgimento de um viés sexual no amor de uma jovem é patológico." Em 1896, Bernhard Windscheid postulou: "Na mulher normal, especialmente a de alta classe social, o instinto sexual é adquirido, não inato; quando é inato ou despertado autonomamente, é uma anormalidade. Como as mulheres não conhecem esse instinto antes do casamento, elas não podem perdê-lo, uma vez que não há ocasião na vida para aprendê-lo."
E então, o que aconteceu?

Obviamente, ideias sobre gênero e sexualidade não são as mesmas em todo lugar, e em cada lugar e tempo há sempre contestação e visões diferentes. A história de como esse estereótipo - de que mulheres têm mais desejo sexual que os homens - foi invertido não é simples de traçar, não se deu de forma regular ou aconteceu de uma vez só. A historiadora Nancy Cott aponta o crescimento do protestantismo evangélico como catalisador dessa mudança, pelo menos na Nova Inglaterra. Ministros protestantes cujas congregações estavam crescendo, compostas agora sobretudo por mulheres brancas de classe média, provavelmente acharam razoável retratar suas fiéis como seres morais que estavam especialmente preparadas para responder ao chamado da religião, em vez de pintá-las como sedutoras indignas, de destino selado no Éden.
As mulheres tanto gostaram desse novo retrato como ajudaram a construí-lo. Era um caminho para um certo nível de igualdade com o homem, e mesmo superioridade. Por meio do evangelho, as mulheres cristãs eram "exaltadas acima da natureza humana, elevadas aos anjos", como diz o livro "A fêmea amiga, ou os deveres das virgens cristãs", de 1809. A ênfase na pureza sexual presente no título do livro revela que, se as mulheres fossem agora os novos símbolos da devoção religiosa protestante, deveriam sacrificar a recognição de seus desejos sexuais. Embora até mesmo os puritanos acreditassem ser perfeitamente aceitável tanto para homens quanto para mulheres desejar o prazer sexual (restrito ao casamento), as mulheres poderiam agora admitir querer sexo com o propósito de estabelecer vínculos com o marido ou para satisfazer seu instinto maternal. De acordo com Cott: "A falta de desejo sexual foi o outro lado da moeda paga, por assim dizer, pelas mulheres, no reconhecimento de sua igualdade moral". (Alyssa Goldstein)

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Versos e Subversas: Emicida, Trepadeiras e o Vacilão


Neste Versos e Subversas, vou abordar a "polêmica" acerca do machismo presente na música "Trepadeira" do Emicida, fonte de críticas  e atos contra o femicídio incentivado pelas produções culturais. A foto ao lado retrata parte do ato realizado recentemente numa apresenteção do Emicida, organizado e convocado pelas "Trepadeiras" (clique aqui para ler a convocatória!). Para seguir lendo o texto é importante conhecer a música... se não conhece clique aqui para ler a letra da música. Não há dúvida de que o personagem-narrador da música (o "eu lírico") tem posturas machistas, as mais óbvias: depreciação da mulher que faz o que quer com seu corpo ("biscate", "trepadeira"...); ameaça de violência contra ela justamente por fazer o que quer com seu corpo e desejo ("Merece era uma surra de espada de São Jorge / um chá de comigo ninguém pode"). A questão é saber se pode-se transpor essa postura do "eu lírico" pro autor da canção, Emicida. Uma primeira pergunta, para nos localizarmos, seria: Emicida fez essa canção para deliberadamente estimular posturas machistas como a do personagem-narrador?

Claramente, não, o que se pode concluir pelo que se conhece da obra e da postura pública de Emicida, que não apresentam traços de apologia ao machismo. Isso pode ser fortalecido pelo texto de sua defesa contra as críticas recebidas, em que se coloca do mesmo lado das feministas (texto aqui). Isso, claro, não exime Emicida de machismo nesta canção, pois ele pode, mesmo sem intenção, ter construído uma canção machista, ou seja, que  fortalece e incentiva ações machistas.



O principal argumento de Emicida em sua defesa é que se trata de um retrato ficcional de um cara com dor de cotovelo (e, infiro, com as consequentes reações violentas). Retrato similar e inverso, defende ele, ao que fez em outra canção ("Vacilão"): um mulherengo que sofre porque a sua namorada o abandona por vacilar (ficar com outras mulheres, trair). Em um segundo argumento, aponta que muitos outros compositores, como Lupcínio Rodrigues, em suas canções de "dor de cotovelo" fizeram o mesmo: retratos dessas situações e reações.

O primeiro argumento merece discussão. O segundo não o isenta, já que Lupcínio, como muitos outros sambistas e compositores, pode também ter criado (e criou!) canções machistas de dor de cotovelo. Li algumas análises de "Trepadeira" que afirmam que a violência da postura do personagem-narrador "é própria da dor de cotovelo, não é machismo". Bom, é importante verificar a quantidade/qualidade de agressões geradas pelo ciúmes e possessividade de homens e mulheres. Acredito que não preciso recorrer a estatísticas oficiais para convencê-los de que o ciúmes do homem fere e mata muuuuuito mais do que o das mulheres, certo? Qualquer busca simples sobre o tema no google vai te mostrar estatísticas assustadoras (só pra citar, estudo publicado ontem - 24/09 - na Folha, aponta que 80% dos familicídios são praticados por homens, imagine agora as estatísticas dos assassinatos envolvendo apenas as mulheres, sem os filhos!!! Link aqui). Sim, a "dor de cotovelo" está tingida toda de machismo e mancha a mão dos homens com o sangue das mulheres. E o próprio machismo retroalimenta e amplifica o raio de ação do "ciumento", já que o homem se sente no direito de controlar a mulher em praticamente todos os aspectos de sua vida e não aceita ser controlado, ou aceita de forma específica e tópica (e quando a mulher o tenta controlar, é tida como "louca", "histérica").

O interessante é discutir o primeiro argumento. Pra isso precisamos antes responder se é possível retratar a sociedade (ou ficcionalizar algum aspecto seu) sem "sujar as mãos", ou seja, de forma "isenta", "neutra", sem posicionar-se. Acredito que um "retrato" nunca é bem um retrato: a metáfora é enganadora, já que nem em uma foto se tem isenção de posição, intenção, foco. Uma reprodução "neutra" é uma forma camuflada de  reproduzir o modus operandi dominante na sociedade que, sabemos, favorece alguns em detrimento de outros (no caso, o machismo é dominante e favorece homens). Portanto, ou você está fortalecendo o machismo ou o atacando. Ou você está fortalecendo a ordem-conservadora-dominante estabelecida ou está a atacando. Isso nem sempre é fácil de avaliar e distinguir em obras artísticas, principalmente em obras mais complexas (a escritora Hilda Hilst foi, e ainda é, criticada indevidamente por seus textos pornográficos, acusada, por exemplo, de incentivar a pedofilia em "O Caderno Rosa de Lori Lamby").


Emicida parece tentar se apoiar na idéia de que sua canção "Trepadeira" é uma ficção que retrata uma situação comum... tenta fortalecer ainda mais seu argumento quando diz que a história retratada pela "Trepadeira" está equilibrada com o retrato do "Vacilão", feito em outra música, onde um homem é criticado por ter "vacilado" com sua namorada que o abandona, e sofre por isso. Assim teria mostrado os dois lados da moeda. Difícil falar em dois lados, quando um deles, o da mulher, é claramente massacrado. Aliás, se seguirmos o que o próprio Emicida sugere, de narrativas complementares-opostas, teríamos em "Vacilão" o homem-errado ("vacilão"), a mulher-certa; logo, em "Trepadeira", o homem-certo, a mulher-errada ("trepadeira, biscate"), o que reforça a associação machista de que a mulher não deve ser dona do seu corpo, mas submissa. Buenas, se comparamos as letras de "Trepadeira" e "Vacilão" (clique aqui para ler a letra) vemos que apenas em "Trepadeira" aparece a violência contra uma das partes (no caso, contra a mulher). Se Emicida respondesse a isso dizendo que assim é porque assim ocorre na sociedade; que está apenas retratando como um homem e uma mulher reagem a uma situação semelhante, estaria assumindo a idéia furada já abordada acima do "retrato neutro" e, assim, estaria naturalizando a violência contra a mulher. Uma outra possibilidade de resposta é a de que haveria uma crítica embutida à postura do narrador-personagem em "Trepadeira". 

Justamente, vi algumas análises de "Trepadeira" na internet que lêem o personagem-narrador como um
bobão-chorão-ciumento que não consegue lidar com uma mulher que faz o que quer com seu corpo. Logo, a canção estaria depreciando figuras como a dele. Acho, claro, uma leitura possível, apesar de pouco provável pela forma como a narrativa é construída... pra mim, entre negativas e positivas, o narrador claramente ganha a parada, há uma empatia criada que leva o ouvinte (homens e mulheres criad@s em uma cultura machista e sem questionamento crítico sobre o tema) a ficar do lado do narrador-personagem e entender como "justa" ou "justificável" a sua intenção de violência contra a mulher ("é, ela merece mesmo uma surra", "biscate"). Logo, pra mim, a música é sim machista e, Emicida, o vacilão da vez. Isso não significa que toda a obra do Emicida seja machista, nem que ele seja um apologista do machismo. Importante acompanharmos como ele reage às críticas apontadas e como isso repercute em sua postura e obra daqui em diante.

Aliás, é importante salientar que, em termos de música machista, Emicida tem razão ao dizer que existem outros importantes e fundamentais alvos que precisam receber a devida crítica: grupos musicais que se constróem fundamentados no machismo e que são impulsionados, justamente por isso, por grandes gravadoras e atingem milhões de pessoas. O fato de haver outros alvos-machistas, talvez maiores e mais importantes na luta feminista, não implica que não se deva criticar o Emicida ou qualquer outro que fizer música machista, seja Lupcínio Rodrigues (em "Braza": "Toda vez que eu chego em casa, desce logo uma explosão/ Ciúme de mim, não acredito!/ Pois meu bem, não é com grito que se prende um coração/ Desculpe a minha pergunta, mas quem tanta asneira junta lhe ensinou a me falar/ Seu professor bem podia ensinar que não devia deste modo me tratar. Isso é um soco, não é nem um tapa..."), seja João Bosco e Aldir Blanc (em "Gol Anulado": "Quando você gritou 'Mengo', no segundo gol do Zico tirei sem pensar o cinto e bati até cansar"). Liberdade poética, lamento informar, tem sim limites (e há tantos outros, limites conservadores e machistas a se quebrar!)

Queria ainda ressaltar algo que me parece óbvio, mas sei que pode não ser para muitos: não se deve inferir do fato de alguém transar com várias pessoas nada além de que ela quer transar com várias pessoas. Talvez a "trepadeira" da música amasse o narrador e queria transar com outros. Talvez ela amasse o narrador e outros. Talvez ela não o amasse e apenas queria transar com ele. Homens precisam aprender a receber o "não" e aceitar o "sim" não exclusivo. Amor e sexo, eu sei, possuem em nossa sociedade um relação tensa, tristemente muito (mas muito!) mais tensa para mulheres do que para homens.

Pra fechar, um poema muito bom que foi publicado no "Feminismo sem demagogia" (clique aqui) em resposta ao poema de defesa que o Emicida vem declamando antes de cantar a música "Trepadeira" em seus shows. No poema, Emicida vai mostrando como defende a mulher em outras canções e como acredita que as mulheres devem ser livres pra serem o que quiserem, inclusive "trepadeiras". Eis aqui a resposta poética e política de uma mulher:

Ouvi teu poema com som de canção
Mas esta melodia não alivia meu coração
Não adianta dizer que disse outrora
Se o que me maltrata é o que cantas agora.

Eu, assim como todas as mulheres, como você diz
Mereço respeito, mereço uma vida feliz
Por que cantastes então censurando nossa liberdade
Vestindo de macho recalcado seu personagem?

Por que cantas que merecemos apanhar ? Me diz?
Por que cantas que merecemos ser envenenadas?
Por que cantas que a mulher livre merece ser depreciada?
Por que cantas se não acredita nesta moral infeliz?

Não me venha com poeminha cheio de demagogia,
Discurso bonito? Qualquer um pode fazer sobre a laje fria.
O homem que nos romanceia, é o mesmo que nos mata,
Queremos respeito, não suas rimas dissimuladas.

Disseste que tens o direito de cantar sobre o quiser…
Cantas! Grite ao mundo todo teu direito de oprimir!
Deslize em suas melodias a opressão contra a mulher,
Só não tente com hipocrisia do que cantas se redimir.


(Texto de Jeff Vasques)

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Versos e Subversas: Angye Gaona





No "Versos e Subversas" desta semana, falo um pouco da Colômbia e da poeta e lutadora Angye Gaona, que mesmo tendo sido presa e continuamente ameaçada, segue lutando com sua arte pela libertação dos trabalhadores de seu país. Traduzi para o português seu primeiro livro de poesias "Nascimento Volátil". Abaixo segue a intodução que escrevi para esse livro que foi publicado pela fábrica ocupada Flaskô. Ao final, 3 poemas de Angye Gaona! Boa leitura!

Poeta colombiana Angye Gaona: acusada de liberdade!
 

    Em janeiro de 2011, a poeta colombiana Angye Gaona voltando de viagem a Venezuela foi presa pela polícia da Colômbia acusada absurdamente de “narcotráfico” e “rebelião”. Durante longos 4 meses, mesmo sem provas, permaneceu encarcerada.
    Vencido o prazo máximo para seu julgamento, Angye teve que ser posta em liberdade condicional enquanto seu processo se arrasta indefinido até hoje. É interessante ao governo que seja assim, para mantê-la sobre “liberdade” vigiada, com a ameaça constante da sentença de 20 anos de prisão pairando sobre sua cabeça.
     Para entender o processo kafkiano por qual passa Angye (e milhares de outros colombianos) é preciso entender os reais motivos de sua prisão e, para isso, compreender a Colômbia, verdadeiro ponto-cego da América, apagada pela mídia e pouco discutida até mesmo pelas organizações de esquerda.


Colômbia: miséria e rebeldia
    
        A Colômbia, apesar de ser a 4ª maior economia da América Latina, é o 3º país mais desigual do mundo: 68% da população são miseráveis e pobres que “vivem” ao lado de uns poucos milionários, como  o banqueiro Sarmiento Angulo que domina quase metade das finanças do país, sendo o 75º no ranking dos mais ricos do mundo. Essa já grande desigualdade vem crescendo enormemente com a ação das multinacionais que exploram e roubam as riquezas naturais do país, agindo sobre 40% do território (áreas já concedidas ou em trâmite).
      Esse quadro de desigualdade vem se construindo ao longo da história do país, gerando choques violentos entre liberais, conservadores e comunistas. Um dos mais marcantes acontecimentos de sua história ocorreu em 1964, quando liberais e conservadores lançaram o exército contra camponeses rebelados influenciados pelos comunistas, promovendo o Massacre de Marquetália. Deste massacre, escapam para as selvas 48 camponeses, os quais fundam as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e dão início a mais antiga guerrilha do mundo, que controla hoje entre 15% e 20% do território colombiano.
       Neste contexto de enormes desigualdades e intensa revolta popular, os governos colombianos (Ayala, Uribe e, agora, Santos) vêm reprimindo  duramente qualquer manifestação de pensamento crítico; criminalizando as liberdades de expressão, manifestação e livre organização e reduzindo as FARC a um grupo “narco-terrorista”, ignorando suas reivindicações políticas. Tudo isso com enorme apoio militar dos EUA (Plano Colômbia) que tem interesse geopolítico e econômico na região.

O terrorismo de Estado na Colômbia

Atualmente, há na Colômbia pelo menos 7.500 presos políticos: 90% de civis - sindicalistas, jornalistas, acadêmicos, estudantes, ambientalistas, camponeses - e apenas 10% de membros das FARC. Dados oficiais da Defensoria do Povo, vinculado ao Ministério Público da Colômbia, reconhecem que há 61.604 pessoas “desaparecidas” nos últimos 20 anos, sendo que outros 16.655 ainda não receberam esse status, pois desapareceram há “pouco tempo” (os números estimados pelos movimentos são bem maiores). Em 2010, a Central Unitária dos Trabalhadores da Colômbia denunciou que, em 10 anos, 2.778 sindicalistas foram assassinados, ou seja, 60% dos sindicalistas assassinados no mundo. São comuns as práticas de tortura e assassinatos exemplares praticados pelo exército e pelas milícias de paramilitares que são incentivadas e acobertadas pelo governo. Recentemente, foi encontrada nos arredores da base militar da Força Tarefa Omega (menina-dos-olhos do Plano Colômbia), a maior cova comum do continente com 2000 corpos de “desaparecidos”.

            Os números indicam um novo recorde macabro na América: a “democracia” colombiana tem destruído mais vidas que as ditaduras do Chile e da Argentina juntas (as duas mais sangrentas da América!).




“E se um menino preso chora, dirás,
e se um homem é torturado, dirás.”
Angye Gaona
           
         O terror de Estado na Colômbia tem intimidado a população que se cala para não ser presa ou morrer. A poeta Angye Gaona, ao contrário,  vem se posicionando publicamente a favor da luta dos trabalhadores, estudantes e dos milhares de presos políticos. Artista de intensa atividade cultural, Angye trava com sua poesia e com sua arte o bom combate, auxiliando na construção da esperança para todos que desejam afirmar a vida na Colômbia, apoiando diretamente a luta dos presos políticos. Por isso mesmo, o governo de Santos armou sua prisão com um julgamento de “cartas marcadas”.
         Para garantir a liberdade de Angye e dos demais presos políticos é preciso uma campanha internacional que denuncie o terrorismo de Estado colombiano. Calar diante da situação colombiana é aceitar, indiretamente, que o mesmo ocorra em outros países da América. É visível, nestes últimos anos no Brasil, o fortalecimento de posições fascistas e de ultra-direita, o crescente desrespeito aos direitos humanos manifesto mais claramente nas ações policiais e militares nas favelas, periferias, universidades e ocupações.
              Por isso, é preciso forjar, apesar das dificuldades, a unidade da luta latinoamericana, pois um fantasma ronda a América... e, infelizmente, não parece ser o do comunismo. No Brasil, a Agenda Brasil-Colômbia (http://agendacolombiabrasil.blogspot.com/), comitê constituído por colombianos e brasileiros, vêm buscando denunciar a situação de terror-ditatorial da Colômbia em nosso país e compartilhar com os lutadores colombianos a situação política brasileira, ainda marcada pelas ditaduras de ontem e de hoje. É preciso que cada vez mais falemos uma só língua, a da classe trabalhadora de nossa Grande Pátria. Como diz Angye, em um de seus mais belos poemas, “é momento de forjar e fazer luzir o fio”!

Nascimento Volátil
           
Conheci a poesia e a história de Angye enquanto pesquisava sobre poesia de luta na América Latina. Durante sua prisão, traduzi algumas de suas poesias para fortalecer a campanha internacional por sua liberdade. Assim que foi posta em liberdade condicional, aguardando julgamento, estabeleci contato e desde logo começamos uma fraterna amizade que, apesar de virtual, é forjada na concretude do que nos comove e move: a poesia e a luta pela liberdade plena.
   A divulgação no Brasil da situação dos presos políticos da Colômbia (e do caso de Angye) surtiu bons frutos: Batata, quadrinista de combate e trabalhador da Fábrica Ocupada Flaskô, desenhou o poema “A fuga” de Angye e também estreitou contato com a poeta. É assim que nasce a ponte entre Angye, Colômbia e a Flaskô:  ponte concreta que nasce e se lança por sobre quilômetros de distância com a publicação deste livro.
    Acredito que são desses “nascimentos voláteis” de que fala Angye... algo antigo - e sempre novo - está nascendo deste belo encontro da luta do povo colombiano com a luta dos trabalhadores da Flaskô em defesa do controle operário. Prova concreta de que a luta e a poesia da classe trabalhadora não têm fronteiras e deve, cada vez mais, se tornar uma só. Uma só voz, um só canto, uma só força: que os trabalhadores se façam soberanos sobre seu próprio trabalho; que o povo colombiano se faça soberano sobre sua vontade de vida e liberdade; que a poesia se faça pão na luta do homem e da mulher por se fazerem verdadeiramente humanos.

            Espero que o livro de Angye Gaona inaugure essa comunhão de revoltas!

Jefferson Vasques - Poeta, militante e tradutor deste livro


A fuga

Perde a casa,
salte do leito,
enche os bolsos de fugas,
olha passar pelas janelas
tua conta pendente de paisagens intocadas.

Encontra, de madrugada,
o grito interior do distante;
ou de tarde,
a bola de lodo no peito:
acumulação malsã de famílias enoveladas
que te deram em uso seus nomes,
agora gastos, errantes.

Marcha até o tédio, sangue meu.
Não queiras pisar o povo fértil que te chama a sua memória
só até perder-se mais,
perder-se melhor onde prefiras:
no oceano de graças deslumbrantes e profundas,
no deserto letárgico e eqüidistante de casa,

na montanha fecunda onde se multiplicam os caminhos.

Pisa aqui e ali até agonizar.
Volta a partir quando te tomem por louca
e tentem te enviar de barco a outro porto
ou te tratem como mercadoria que se perde nos bazares
de quem ninguém sabe de onde seu brilho ou avaria.

Entre tanto, estará teu povo fértil
crescendo abundante como terra descansada,
esperando ver florescer tua vara
e teu fazer.


Tecido brando

Calma e tino te digo, peito brando.
Não queiras conter toda a água dos mares.
Toma uns litros de ondas bravas,
de espuma fera.
Deixa que se encrespe dentro de ti,
cavalo afrontado,
mas não domes esta água
que o tempo a requer viva
e pungente.
Respira e prepara-te, peito brando.
Não queiras conter todo o ar dos abismos,
toma só o de tua pequena inspiração,
o acaricie por instantes,
o sussurre como se ao último alento
e o deixe livre ir ali,
onde tu também querias:
vasto, imenso, indistinto.
Sopra forte o que guardas.
Não recolhas mais lágrimas, peito brando.
E se um menino preso chora, dirás,
e se um homem é torturado, dirás.
Que não é tempo de guardar a ira, te digo.
É momento de forjar e fazer luzir
o fio.


Caminho

O caminho entrou pela janela
como um ramo que a tormenta afugenta.

Chovia.
Agudos nomes caíam gravemente,
desde cima entoados,
chamados a rodar pelas calçadas.

As casas se tornaram caminhos
ou foram atravessadas por eles.

A lucidez se apoderou das casas.
Os habitantes buscaram os terraços,
ascenderam e alçaram suas frontes com fervor
para o raio que revelou o caminho,
por um instante.


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Umberto Eco Filosofando no Feminino - Parte 2

por Tággidi Ribeiro


Eis a segunda e última parte do ótimo texto de Umberto Eco, intitulado "Filosofar no feminino":

As feministas elegeram há certo tempo a heroína Hipácia, que, na Alexandria do século V, era mestre de filosofia platônica e de matemática. Hipácia se tornou um símbolo, mas infelizmente de suas obras restou apenas a lenda, pois se perderam, e perdeu-se a ela também, literalmente partida em pedaços por uma horda de cristãos enfurecidos, segundo alguns historiadores, açulados por aquele Cirilo de Alexandria que, embora não por esse motivo, mais tarde foi santificado. Mas Hipácia seria a única?
Saiu na França um livrinho, Histoire des femmes philosophes (ed. Arléa). Se nos perguntarmos quem seria o autor, Gilles Ménage, descobriremos que vivia no século XVII, era um latinista, preceptor de Madame Sévigné e de Madame de Lafayette e que seu livro, publicado em 1690, intitulava-se Mulierum philosopharum historia. Longe de Hipácia ser a única: embora seja dedicado principalmente à idade clássica, o livro de Ménage apresenta-nos uma série de figuras apaixonantes. Diotima, a Socrática; Arete, a Cirenaica; Nicarete, a Megárica; Hipárquia, a Cínica; Teodora, a Peripatética; Leôncia, a Epicúrea; Temistocleia, a Pitagórica.
Folheando os textos antigos e as obras dos pais da Igreja, Ménage havia encontrado citações de nada menos que 65 filósofas, ainda que entendesse filosofia em sentido bem amplo. Se calcularmos que na sociedade grega a mulher era confinada às paredes domésticas; que os filósofos, antes que com moçoilas, preferiam entreter-se com mancebos; e que, para desfrutar de notoriedade pública a mulher tinha de ser cortesã, compreende-se o esforço que hão de ter feito aquelas pensadoras para se afirmarem.
Aspásia ainda é recordada como cortesã, por mais qualidade que tivesse, esquecendo-se de que era versada em retórica e filosofia e que (Plutarco é testemunha) Sócrates a frequentava com interesse. Fui folhear ao menos três enciclopédias filosóficas atuais, e desses nomes (exceção feita a Hipácia) não encontrei sequer o rastro. Não que não tenham existido mulheres que filosofavam. É que os filósofos preferiram esquecê-las, quem sabe depois de terem se apropriado de suas ideias. 
  (Revista Entrelivros, fevereiro de 2006)
Acho que a suposição de Eco bem pode estar certa.




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Versos e Subversas: Cora Coralina



Cora Coralina, pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, (1889 - 1985), poetisa,  contista e doceira, é considerada uma das principais escritoras brasileiras.  Impressionantemente, Cora teve seu primeiro livro publicado apenas em 1965  quando já tinha quase 76 anos de idade!!!  Mulher simples, alheia a modismos literários, produziu uma obra poética rica em motivos do cotidiano do interior brasileiro, em particular dos becos e ruas históricas de Goiás, e também desenvolveu – com profunda intensidade - uma identificação com todas as mulheres que sofrem a opressão machista e sexista.



AUTOBIOGRAFIA (trecho)

Sobrevivi, me recompondo aos
bocados, à dura compressão dos
rígidos preconceitos do passado.
Preconceitos de classe,
Preconceitos de cor e de família.
Preconceitos econômicos,
Férreos preconceitos sociais.

Desde cedo, em sua juventude, já causava espanto à família com sua postura transgressora dos valores sociais da tradicional sociedade vilaboense (interior de Goiás). Era nada comum uma moça, naquela época, dedicar-se tanto a ler e escrever, construir-se como intelectual e buscar ter uma vida própria e ativa, fora dos círculos tradicionalmente tidos como “femininos”. Era chamada pela família de “solteirona”, aos 20 anos, já que as mulheres com essa idade já deveriam estar casadas e com filhos. Durante uma tertúlia literária ela se apaixonou por Cantídio Tolentino de Figueiredo Bretãs, advogado, separado, pai de dois filhos e vinte anos mais velho. A família, seguindo os valores machistas e retrógrados (ainda presentes em nossos dias, mas, agora, mais mascarados) foi completamente contra o romance. Cora, então, parte com Cantídio para São Paulo, onde vai morar por vários anos. Com a morte do marido, passou a vender livros. Posteriormente, mudou-se para Penápolis, no interior do estado, onde passou a produzir e vender linguiça caseira e banha de porco. Mudou-se em seguida para Andradina, até que, em 1956, retornou para Goiás.

NASCI ANTES DO TEMPO

Tudo o que criei ou defendi
nunca deu certo.
Nem foi aceito.
E eu perguntava a mim mesma
Por quê?

Quando menina,
ouvia dizer sem entender
quando coisa boa ou ruim
acontecia a alguém:
fulano nasceu antes do tempo.
Guardei.

Tudo que criei, imaginei e defendi
nunca foi feito.
E eu dizia como ouvia
a moda de consolo:
nasci antes do tempo.

Alguém me retrucou:
você nasceria sempre
antes do seu tempo.
Não entendi e disse Amém.

A escolha de um pseudônimo (Cora Coralina) foi uma estratégia encontrada por Ana para afirmar uma  nova identidade para si, buscando superar o peso que a família e a sociedade jogavam às suas costas. Como diz sua neta, Ana Maria Tahan, “a Ana que virou Cora e foi rejeitada pela cidade, criou asas e ganhou fama”. Como Cora Coralina, Ana conquistava sua liberdade, afirmando-se como mulher transgressora e libertária. Em São Paulo desenvolve atuação política pela causa “revolucionária” (Revolução Constitucionalista de 1932), foi enfermeira, cuidando dos combatentes feridos; confeccionou bonés, uniformes e aventais para os “rebeldes”; subiu em palanques para defender a causa feminista; foi líder de movimento, elaborando um manifesto em defesa da formação de um partido político feminino e até organizou uma agremiação (fonte: "Cora Coralina: a poesia como ação política").


“... o pseudônimo Cora Coralina acaba sendo uma senha, um sinônimo, equivalente a lavadeira do Rio Vermelho... o substantivo cora ou, popularmente, quarar, com seu significado de branquear roupas, expondo-as ao sol. Libertária sim, pois com a fantasia magnânima e com êxtase da poesia, lava a sujeira, os monturos da vida, o pó da mesquinhez humana... as lavadeiras, em sua grandeza, fazem o cotidiano mais limpo e perfumado. Cora, a lavadeira do Rio Vermelho, purga a mesmice do cotidiano, elevando todos os sonhos”. (Saturnino Pesqueiro Ramón).




A LAVADEIRA

Essa mulher...
Tosca. Sentada. Alheada ...
Braços cansados
Descansando nos joelhos ...
Olhar parado, vago,
Perdida no seu mundo
De trouxas e espumas de sabão
- é a lavadeira.

Mãos rudes deformadas.
Roupa molhada.
Dedos curtos.
Unhas enrugadas.
Córneas.
Unheiros doloridos
Passaram, marcaram.
No anular, um círculo metálico
Barato, memorial.

Seu olhar distante,
Parado no tempo.
À sua volta
-uma espumadeira branca de sabão.

Inda o dia vem longe
Na casa de Deus Nosso Senhor,
O primeiro varal de roupa
Festeja o sol que vai subindo.

Vestindo o quaradouro
De cores multicores.

Essa mulher
Tem quarentanos de lavadeira.
Doze filhos
Crescidos e crescendo.

Viúva, naturalmente.
Tranqüila, exata, corajosa.

Temente dos castigos do céu
Enrodilhada no seu mundo pobre.

Madrugadeira.

Salva a aurora.
Espera pelo sol.
Abre os portais do dia
entre trouxas e barrelas.

Sonha calada.
Enquanto a filharada cresce
Trabalha suas mãos pesadas.

Seu mundo se resume
na vasca, no gramado.
No arame e prendendores.
Na tina d’água.
De noite – o ferro de engomar.

Vai lavando, vai levando.
Levando doze filhos
Crescendo devagar,
Enrodilhada no seu mundo pobre,
Dentro de uma espumadeira
Branca de sabão.

Às lavadeiras do Rio Vermelho
Da minha terra,
Faço deste pequeno poema
Meu altar de ofertas.


Obviamente, Cora, como uma mulher em transição e em superação, apresenta em sua poesia traços, às vezes, contraditórios acerca da imagem feminina. Avança muito além de seu tempo ao se fazer mulher dona de seu destino e ao se identificar com todas que lutam para sobreviver em meio ao machismo e patriarcalismo. Mas há também traços da Ana Lins, ainda presa à subjetividade feminina tradicional, contradição que as mulheres, como seres históricos, enfrentam por serem, ao mesmo tempo, sujeitas e assujeitadas às relações sociais vigentes, às “normas” de gênero.

MULHER DA VIDA (trecho)
(escrito para o Ano Internacional da Mulher, em 1975)

Mulher da Vida,
Minha irmã,
De todos os tempos,
De todos os povos,
De todas as latitudes,
Ela vem do fundo imemorial das idades
E carrega a carga pesada
Dos mais torpes sinônimos,
Apelidos e ápodos:
Mulher da zona,
Mulher da rua,
Mulher perdida,
Mulher à-toa.
Mulher da Vida, minha irmã.
Pisadas, espezinhadas, ameaçadas,
Desprotegidas e exploradas,
Ignoradas da Lei, da justiça e do direito.






E fecho o "Versos e Subversas" desta semana com uma historinha pessoal: certa vez, em minhas viagens pelo Goiás, sentou-se ao meu lado no ônibus um pedreiro que havia morado em Goiás Velho. Papo vai, papo vem, menciono o nome de Coralina (estava indo visitar sua casa) e ele me diz, pra minha surpresa, que a conhecia, que quando menino vendia cajus pelas ruas e sempre batia à porta de Cora, que fazia doces e compotas com as frutas. Ele me disse, emocionado, que muitas vezes, precisando de dinheiro, levava para Cora bacias com cajus ainda verdes e, Cora, bonita como ela só, sempre sorria e fingia não perceber. Um viva a essa linda e lutadora mulher, Cora Coralina!




TODAS AS VIDAS

Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo...

Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d'água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.

Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem-feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.

Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.

Vive dentro de mim
a mulher roceira.
- Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem chiadeira.
Seus doze filhos,
Seus vinte netos.

Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo alegre seu triste fado.

Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida -
a vida mera das obscuras.

(seleção e texto de Jeff Vasques)