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Como o ocidente matou Amina Filali


por Tággidi Ribeiro

Mulher carrega foto de Amina Filali em protesto

O ocidente deplorou a morte de Amina Filali, de apenas 16 anos. Para quem não sabe da história, a adolescente marroquina cometeu suicídio por ter sido obrigada a casar com seu estuprador (o nome dele não foi divulgado). No Marrocos é previsto em lei que homens deixem de cumprir pena pelo crime de estupro casando-se com suas vítimas. O estuprador de Amina achou por bem, então, casar-se com ela, em vez de ser condenado a até vinte anos de prisão. A família da moça concordou. Ela não. Infelizmente, Amina não era dona do seu corpo, nem de sua vontade

Durante cinco meses de casamento, Amina foi constantemente agredida verbal e fisicamente, e repetidamente estuprada. Tentou voltar para a família, que não a recebeu. Sem saída para o inferno que seria sua vida,  a adolescente tomou veneno de rato. Amina morreu no meio da rua – quando soube que ela havia ingerido o veneno, seu “marido” a arrastou pelos cabelos em via pública.

O ocidente, como dito antes, deplorou a morte da adolescente Amina Filali, em março deste ano. A comunidade internacional se mobilizou pela revogação da lei que obriga mulheres estupradas a casarem-se com os homens que as estupraram – o que ainda não aconteceu. Mesmo aqui no Brasil, onde em geral as vítimas de estupro enfrentam a desconfiança da opinião pública, Amina despertou compaixão.

Sei que muita gente deve ter falado ou pensado sobre a condição das mulheres orientais – sobre o quanto elas ainda sofrem com a falta de liberdade. Contudo, o pano de fundo da situação das mulheres orientais não difere do nosso e o fato do ocidente ter olhado com respeito para essa morte não o torna menos responsável por ela. Nós também matamos Amina Filali.

Nós matamos Amina Filali porque ainda julgamos que uma mulher só tem valor se for sexualmente pouco ativa. Para os marroquinos, a questão é simples: se a mulher praticou sexo antes do casamento, consentido ou não, ela nada mais vale. Por isso a lei faculta ao estuprador (com quem a mulher não consentiu sexo) casar-se com sua vítima – só ele pode redimi-la e ampará-la, já que nenhum outro homem quereria para si uma mulher que já foi de outro. Mais flexíveis que os orientais, permitimos às moças certa liberdade sexual: ter alguns parceiros/namorados antes do casamento é considerado normal. Ter muitos parceiros, não. Mulheres de muitos parceiros são preteridas para o casamento, sabemos muito bem disso. Então ficamos assim: no oriente, uma mulher de valor deve ter apenas um único homem em sua vida; no ocidente, uma mulher de valor deve ter, no máximo, cinco homens. Lembro a todos que, até os anos 1960, a valoração da mulher a leste e a oeste era dada pela mesma marca de um só parceiro sexual para a vida toda. E pergunto: quando vamos chegar à conclusão incrível de que essa distinção ridícula não faz sentido?

Por não ter resposta, reafirmo: nós também matamos Amina Filali. Enquanto medirmos o valor de uma mulher por quantos parceiros ela teve ao longo de sua vida, continuaremos matando e estuprando mulheres. Enquanto as mulheres não forem donas de seu corpo e sua vontade, continuaremos. Enquanto não assumirmos que as mulheres são seres humanos e não propriedades, continuaremos estuprando e matando Amina Filali.   
Feminismo é a ideia radical de que mulheres são gente

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Guest Post: Feminismo não é coisa de mulher

por Nanni Rios

Eu sou feminista, mas não espalha. Me dedico a combater preconceitos e todo tipo de discriminação, que, em geral, têm origem justamente nos rótulos que insistem em colar na nossa testa, como se fosse necessário nos classificar para, então, guardar-nos em caixas, gavetas ou armários devidamente identificados.

Tudo isso pra dizer que eu e meus ideiais não cabemos numa gaveta, numa caixa ou muito menos num armário e que para dar às mulheres o valor que elas têm, não é preciso amaldiçoar os homens. Feminismo radical dói tanto quando machismo enraizado. E antes que me atirem pedras, explico: de nada adianta cultivar a ideia de que homens são inimigos, pois isso é a raiz do mal, puro sexismo. Generalizar e etiquetar os homens só pelo que eles têm de diferente é fazer o mesmo que eles fizeram com as mulheres de forma tão nociva ao longo da história. Destruir o que é diferente para mostrar força é a maior prova de fragilidade. 

Precisamos trazer os homens para o nosso lado, pois enquanto a luta pela igualdade de gênero for uma bandeira só das mulheres, a mudança será lenta. Não sei citar estatísticas e talvez eu esteja chovendo no molhado ao bradar aqui algo que vocês estão fartas de saber, mas o meu termômetro, além do que observo no dia-a-dia, é a Marcha das Vadias que rolou neste domingo, 27, aqui em Porto Alegre, onde moro. Fui para o Parque da Redenção enrolada na bandeira do arco-íris e de câmera fotográfica em punho e não apenas acompanhei a marcha e seus hinos, como circulei bastante em busca de boas fotos e, assim, constatei o baixíssimo quórum masculino. Pelo jeito, quem se importa com a nossa liberdade ainda somos nós mesmas. 

Vadias em marcha! (foto: Nanni Rios)

Fiquei me perguntando: onde estão os companheiros daquelas mulheres e por que eles não estavam lá com elas? Ou, no caso das mulheres que não têm companheiro, onde estão os pais, os tios, os primos, os amigos, os professores, os chefes e os colegas de trabalho?

Se por um lado, fico triste com a constatação, por outro compartilho com vocês os registros do exíguo, porém atuante público masculino que passou pela Marcha das Vadias neste domingo. Com um pouco de otimismo, olho pra estas fotos e penso que os nossos homens já não são mais os mesmos e que basta um empurrãozinho na consciência para tirá-los da inércia do machismo enraizado e mostrar que eles são peça fundamental nesta mudança social. Homens feministas por um mundo mais justo e igualitário, que tal?


"Ser feminista não me faz menos homem" na Marcha das Vadias de Porto Alegre (foto: Nanni Rios)

"Sendo puta, sendo santa, só como se ELA quiser" (foto: Nanni Rios)

"Se eu posso, elas também podem" (foto: Nanni Rios)

Por que para um homem parecer uma mulher é degradante?" (foto: Nanni Rios)

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Respeito tem sexo


por Roberta Gregoli


"Repórter: Tenho uma pergunta para o Robert e uma para a Scarlett. Primeiro, Robert, em Homem de Ferro 1 e 2, Tony Stark começa como uma personagem egoísta, mas aprende a lutar em equipe. Então como você abordou esse papel, levando em consideração essa maturidade como ser humano quando se trata da personagem Tony Stark, e você aprendeu alguma coisa nos três filmes?

E para a Scarlett, para entrar em forma para a Viúva Negra você teve que fazer algo diferente em relação à sua dieta, tipo, você teve que comer algum tipo específico de comida ou qualquer coisa assim?

Scarlett [para Robert]: Por que para você fazem uma pergunta existencial super interessante e para mim vem a pergunta da "comida de passarinho"?

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O respeito dado a você se você é homem na indústria de entretenimento e o respeito dado a você se você é mulher na indústria de entretenimento: tudo perfeitamente resumido na pergunta idiota do repórter."

Traduzido daqui.

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Colírio pr@s amig@s de luta: Feminist Ryan Gosling



por Mazu


Ei, gata! Quando você fala, eu escuto a revolução (Aí sim, as mina pira...)

Eu vejo muito em programas de TV e nos blogs da vida os meninos desenvolvendo teorias do que dizer para as meninas, sendo que a maioria delas é bem horrível, algumas horríveis e absurdas e outras horríveis e engraçadas.

Para contrabalancear e deixar a companheirada feliz, resolvi trazer algumas fotinhas do Feminist Ryan Gosling, um tumblr, já mencionado no nosso blog pela , que tem como objetivo popularizar teorias feministas por flashcards que, na verdade, não tem nada a ver com o ator na vida real.
 
Ei, gata. Para mim, é difícil conceber a teoria de Beauvoir sobre a 
genialidade feminina perdida quando estou perto de você
Ei, gata! Vamos fazer uma análise retórica do seu quarto.

De qualquer forma, essa brincadeira com o Ryan Gosling e a busca frenética pela cantada perfeita traz algumas coisas à tona. A primeira é que o cortejo parece ser unicamente obrigação do macho, o que é uma bobagem, né? Socialmente imposta e uma super bobagem. Isso, às vezes, é massa para as meninas porque quando você toma a iniciativa, você já quase tem o elemento surpresa a seu favor. Outra coisa, será que existe mesmo receita do que dizer quando você está a fim de alguém? Esse negócio de negs, cartolas e enfim, será que rola mesmo tanta vantagem e tanto resultado? Estou me referindo aqui a livros como Mistery Method  e todos os similares. Na boa, as idéias chegam mesmo à misoginia. Eu queria ter estômago para esses livros, ia ser legal colocar uma crítica no blog, mas me dá uma tristeza profunda, quem sabe outra subvertida não tenta. Sob meu ponto de vista, esses livros com receitas mágicas servem para tirar dinheiro de gente só e de coração partido por aí, o que é super golpe baixo. Além disso, as ditas obras costumam, tristemente, tratar mulher como coisa, além de querer quantificar as conquistas, o que, de verdade, é patético, patético. Ou seja, disseminam um discurso machista e ensinam qualquer um com solidão ou coração partido a maltratar e odiar as mulheres.

Ei, gata. A fetichização pós-feminista da maternidade está profundamente 
enraizada no classismo, mas ainda acho que faríamos lindos bebês.
Ei, gata. Sim significa sim.
Falar com uma pessoa do sexo oposto sobre seus desejos não devia ser tão complicado. A dica que deixo pros amigos que querem "aprender" a falar com mulher é que não existe um tipo só de mulher. Existem várias personalidades que vão gostar de escutar isso ou aquilo, e mais um monte que vão dizer assim ou assado. Com sorte, a gente encontra quem gosta de ouvir / dizer o mesmo que a gente. Na prática, nem sempre é tão perfeito assim, mas nada justifica nenhum ato (verbal ou não) de violência ou desrespeito. Nem a solidão. Na boa, ficar sozinho numa sociedade como a nossa não devia ser um problema. 

Parece até que sexo é uma espécie de tesouro que as mulheres devem guardar e proteger, e que cabe aos caras conquistar. A Rô quando mencionou o abismo que separa os gêneros num post anterior estava coberta de razão, a gente está sempre querendo ganhar um do outro. Quando é bem mais massa um com outro e um no outro e por aí vai...

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Machismo disfarçado de humor


por Roberta Gregoli

Dizem as más línguas que feministas não têm senso de humor, que são raivosas. Primeiro pergunto, quem não ficaria pelo menos chatead@ ao constatar a realidade: salário 30% menor, violência contra as mulheres que só aumenta, menos de 9% de representação no congresso e menos de 14% no senado, 34% dos cargos de chefia apesar de sermos a maioria (57%) nas universidades e assim por diante. É de rir à toa.

Mas normalmente quando dizem que não temos senso de humor é pelo fato de não ficarmos caladas quando ouvimos piadas desrespeitosas. Aí sempre tem sempre um@ que responde dizendo que é só uma piada, que não tem nada demais. Tenho estudado humor e me sinto à vontade para afirmar categoricamente: não existe humor inofensivo. Ou se está transgredindo, ou reforçando o status quo.

Pensando nisso, decidi fazer um breve catálogo das categorias de piadas sexistas que tenho visto na rede para um exame mais de perto:

1) Piadas que afirmam o comportamento "natural" das mulheres

Que as mulheres gastam o dinheiro dos maridos, falam demais, são vaidosas, superficiais e fúteis, etc.


O intuito dessas piadas é, pura e simplesmente, ridicularizar comportamentos tidos como femininos, ou seja, ridicularizar as mulheres. Essa categoria, apesar de parecer light, justifica atitudes paternalistas de menosprezo e desqualificação ao reforçar estereótipos que estão longe de ser verdade para muitas, senão a maioria de nós.

Quem divulga estas piadas não são só homens, é claro. Como diria uma colega, você sabe que está numa luta difícil quando metade do seu time está contra você. Mulheres muitas vezes promovem esse tipo de humor sem muita reflexão. A piada ao lado, por exemplo, foi compartilhada por uma mulher que sei que sustenta a casa, inclusive o marido, há décadas. Qual a graça em se autodenegrir, sendo que o que é afirmado nem é verdade?

2) Piadas que reforçam o comportamento "adequado" das mulheres

As piadas desta categoria normalmente ridicularizam mulheres que desviam do comportamento considerado adequado (leia-se conservador), normalmente com relação à sexualidade.

Exemplo clássico de reforço de padrão duplo
Comportamentos "adequados" são, claro, comportamentos opressores: tentativas de controlar o que as mulheres vestem, falam, quantos parceiros têm e assim por diante.

Ao sobrepor a categoria 1 à categoria 2, notamos algo curioso. Se nos conformamos aos estereótipos de gênero, somos ridicularizadas, se quebramos com eles... somos ridicularizadas. Em outras palavras, não há lugar de respeito possível para as mulheres dentro da nossa sociedade atual.

3) Piadas que banalizam a violência contra as mulheres

A crônica do Veríssimo comentada num post anterior entra nesta categoria e é aqui que as coisas podem ficar bem feias. Um dos piores exemplos que vi nos últimos tempos foi este

O que todas essas categorias fazem, e a categoria 3 faz mais nitidamente, é naturalizar o desrespeito através da ridicularização. E o desrespeito simbólico é o primeiro passo para a violência real

Recentemente, com a Marcha das Vadias, muito se têm falado sobre a prática cruel e onipresente de se culpar as vítimas: a sociedade ensina "não seja estuprada" e não "não estupre". Todas essas piadas, e em especial a desta categoria, são exemplos de como o estupro e a violência contra as mulheres, ao serem banalizados são, por consequência, ensinados, pois naturalizam a violência de gênero. Por "naturalizar" entenda-se tornar algo normal e aceitável, afinal é essa a premissa para se achar algo engraçado.


Não se cale

A acusação de não ter senso de humor é um mecanismo de silenciamento, por isso não se deixe intimidar. E digo mais, esse tipo de piada deveria, sim, ser tabu e isso nada tem a ver com liberdade de expressão ou censura (já discuti isso aqui e aqui). Fazer uma piada sobre o Holocausto para um alemão é inaceitável. Isso porque os alemães encararam de frente os crimes cometidos no passado e os levam a sério. Da mesma forma, piadas sobre a violência contra as mulheres deveriam ser tabu -- afinal, foram mais de 90 mil vítimas nas últimas três décadas, colocando o Brasil como o sétimo país que mais mata mulheres no mundo.

Ridicularizar as mulheres por se conformarem ou não ao senso comum, banalizar o estupro e a violência não têm graça nenhuma e devemos denunciar. Existe um mecanismo governamental para registrar cybercrimes: basta acessar http://denuncia.pf.gov.br/ (discriminação entra como Crimes de Ódio). Leva menos de um minuto para fazer uma denúncia anônima, por isso não deixem de reguistrar qualquer site que passe dos limites.

Por fim, para esclarecer, feministas não só têm senso de humor como são engraçadas: veja o ativismo inteligente e lúdico das Guerrilla Girls, o já citado Feminist Ryan Rosling e comediantes de primeiro escalão como Margaret Cho (este vídeo é demais) e Kristen Wiig, só para citar alguns exemplos.

A dica, então, é compartilhar humor do bem, humor que é, de verdade, transgressor por desestabilizar os papeis de gênero -- diferente dos que reforçam comportamentos opressores sob o pretexto perverso do politicamente incorreto.

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    Guest Post: Quando a vida imita a arte


    por Júlia Neves

    Andando por um mercado de rua aqui em Berlim, me deparei com uma roupinha de bebê que dizia "got my looks from my mom and the brain from my dad" (tenho o físico da minha mãe e o cérebro do meu pai). Na hora, já reclamei com um amigo que me acompanhava no passeio: "é sempre assim, a beleza é feminina, a inteligência, masculina. Depois não sabem de onde vem estes preconceitos grotescos. É a vida imitando a arte". Ao escutar isso, meu amigo ficou aguçado e quase instantaneamente disse: "Que isso! É a arte que imita a vida!"

    É a questão do ovo e da galinha, realmente. No entanto, vindo de uma base acadêmica dos estudos culturais, defendo que a arte representa sim a vida. Mas é a vida que imita a arte. Tenho forte convicção de que é a mídia (e nesta incluo tudo, música, literatura, artes plásticas, imprensa, publicidade, etc.) que dissemina discursos e, sendo assim, estereótipos e preconceitos também. Para nós dos estudos culturais, a representação de classe social, etnia, gênero e sexualidade na indústria cultural é fundamental para o entendimento de qualquer sociedade, pois parte-se do princípio de que nós, seres humanos, somos esponjas e absorvemos todo o tempo aquilo que vemos, escutamos e aprendemos em nossa volta. 

    O problema é quando se cria um produto cultural de acordo com a repetição de estereótipos e preconceitos de todos os tipos, enfatizando um discurso já estabelecido e deixando pouco espaço para novas representações culturais. O documentário da diretora Jennifer Siebel Newsom, Miss Representation (com legendas em português), critica exatamente este modelo de representação de mulheres e meninas na mídia norte-americana. Em seu filme, Newsom questiona a excessiva objetificação e sexualização de mulheres na televisão, em filmes, na imprensa e em propagandas com depoimentos de mulheres importantes para a política e cultura americanas, como a ex-secretária de Estado Condoleezza Rice, a atriz Geena Davis e a comediante Margaret Cho. 



    O depoimento de Newsom é a base para o enredo do documentário. Ela, que já foi atriz e hoje é diretora de cinema, conta sobre seus conflitos, dificuldades e desafios como mulher, principalmente sobre a pressão de ser constantemente julgada por sua beleza e não pelo seu intelecto. Eu, particularmente, achei esta base um tanto dramática. Embora entenda a problemática da aparência física, achei a fala dela muito emocional; um discurso com questões verdadeiras e comum a muitas mulheres, porém um tanto vitimizado. 

    Mesmo assim, recomendo o documentário pelas entrevistas e pela discussão da representação midiática de mulheres que é sempre extremamente sexualizada e focada na aparência: as mulheres devem ser bonitas para que os homens possam admirá-las. Mas quando uma mulher mostra intelecto, ela é ridicularizada e alvo de piadas, é a escrota do pedaço. É o que acontece com a Hilary Clinton, com a própria Condoleezza Rice e, no Brasil, com a presidenta Dilma Rousseff. Quantas vezes não ouvi piadas que ridicularizam a presidenta por ela ser mulher: "é mal comida", "sapata", "divorciada" e por aí vai. Ou então que ela não manda, é a secretária do ex-presidente Lula; assim como Hilary Clinton só entrou na política por conta de seu marido:

    O documentário de Newsom critica este tipo de misrepresentation (má representação) que circula de diversos modos na indústria cultural, em qualquer lugar do mundo, seja nos Estados Unidos, na Alemanha ou no Brasil. Na mídia, encontramos predominantemente imagens de mulheres sensuais, frágeis, em busca de um marido/provedor e, quando elas são intelectuais ou poderosas, geralmente esta imagem é passada de forma negativa. Por conta disso, há uma falta enorme de imagens de liderança feminina na mídia, já que esta posição acaba sendo ridicularizada, como mostra a foto acima. 

    Em alguns de seus posts aqui no Subvertidas, a Roberta comentou sobre os comentários infelizes de celebridades brasileiras relacionados ao estupro e ao abuso de mulheres. Por mais que várias pessoas acreditem que o humor politicamente incorreto é inofensivo, estas representações preconceituosas de mulheres, negros, homossexuais e pobres consolidam-se e, pior ainda, tornam-se naturalizadas no nosso dia-a-dia, reforçando mesmo os piores estereótipos. 

    Não conheço nenhum documentário que discuta isso na mídia brasileira. Seria um prato cheio, olhar de perto como as novelas representam gênero e sexualidade, por exemplo. As novelas, banalizadas por muitos, são uma das maiores fontes de cultura popular no Brasil. Muita gente diz que não vê, que acha uma bobagem, mas todo mundo conhece a história, os personagens, as intrigas. E as mulheres geralmente representam os mesmos papeis: são ou vilãs ou mocinhas; na maior parte das vezes são lindas e gostosas (padrão nacional) e fazem de tudo para ficar com o príncipe encantado. Quando bem-sucedidas, são geralmente de mau caráter ou então Virgens Marias. 

    O meio termo é raridade, pois não há espaço para mulheres que não se encaixam nesses padrões e, muito menos, para a representação de outros modelos de feminilidade que não estejam limitados a tais categorias. Esses discursos proliferam-se com tanta naturalidade que nós mesmos reproduzimos vários dos comportamentos representados na telinha. E é aí que passamos a achar normal uma roupa de bebê atribuir beleza à mãe e a inteligência ao pai.

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    Memórias machistas


    por Tággidi Ribeiro

    Há relativamente pouco tempo, eu comecei a olhar de forma muito diferente para as  mulheres. Eu havia desde sempre sido um tanto quanto antipática a elas, ao passo que me dava muito bem com os homens, minhas companhias preferidas em todas as ocasiões. Havia, na minha trajetória, feito boas amigas, mas poucas. Havia conhecido mulheres em minha opinião interessantes, mas poucas. Tinha, no geral, pouco apreço pelo meu próprio gênero, que eu julgava dedicado em demasia à conquista da beleza e do casamento, invejoso, dado a picuinhas.

    Competição feminina como mecanismo
    de manutenção do patriarcado
    Que haja mulheres que se encaixem nesse estereótipo não é de estranhar. Como não é de estranhar que homens se encaixem no estereótipo cerveja, futebol e mulher (que, aliás, não define o que são, mas seus interesses comezinhos, e os reduz a seres desprovidos de subjetividade, logo, pouco humanos). O fato era que eu aceitava conviver com o estereótipo masculino e rejeitava o feminino, em relação ao qual me sentia completamente deslocada.

    A questão vinha de criança. Filha mais velha, tendo um irmão menor, vi a hierarquia etária ser subjugada à hierarquia de gênero. Na minha memória, esse subjugo representou a primeira contradição do mundo adulto. O discurso de autoridade era muito forte: 'respeite os mais velhos' - e eu tendia a ser obediente. Mas quando esse discurso, com o qual eu havia concordado porque me parecera justo, deu lugar àquele da constituição de gênero (embora mais novo, meu irmão tinha mais liberdade que eu por ser meninO), eu protestei.

    Sei que a contradição aqui parece ser a minha. Afinal, tal experienciamento do machismo tão cedo poderia ter facilmente me levado ao enfrentamento desse status quo e à rivalização com o sexo oposto, arbitrariamente posto acima do meu. O enfrentamento se deu de fato: contestava, sempre, desobedecia. Mas em vez de tomar os homens como “inimigos”, tomei as mulheres. 

    Consigo compreender o porquê: eram as mulheres que me instavam, pois que responsáveis por minha educação, a ser como elas. Aprender a cuidar da casa, ter bons modos, preservar a sexualidade foram todos ensinamentos femininos. Eram ensinamentos limitadores, me restringiam ao espaço da casa e esse era o espaço que não me interessava, não só ele, pelo menos. Eu queria mais era saber do mundo.

    “Isso é o que eu vestia quando 
    eu ‘Estava pedindo...’”
    Bem, o mundo aconteceu comigo. Com o passar do mundo, como disse, comecei a olhar as mulheres de outra forma. Fui sabendo, conhecendo a História e histórias que, achei, fossem só minhas: histórias de abuso, de desrespeito - de violência em suas várias formas. Eu, que logo no início da adolescência me condoí com as desigualdades sociais, compreendi e rejeitei o preconceito contra negros e homossexuais, que deplorei a desproteção das crianças – eu não enxergava meu próprio rabo.

    O espelho e a reflexão me reconciliaram com meu gênero. Pude compreender a minha pregressa condição de ‘antipática’ ao mesmo tempo em que entendia a mesma condição nas outras mulheres – é sempre mais fácil subjugar iguais se os fazemos julgar que não o são. Pude compreender as mulheres da minha infância e suas agruras, que eu ignorava.

    Interessante é que só depois de me livrar da culpa, da ideia de ser uma mulher indigna e suja (detalhe cruel e, agora sei, comum às vítimas: era eu quem carregava a mancha pelos abusos sofridos, ainda criança e pré-adolescente, não os meus agressores), pude perceber melhor o desespero do meu gênero: o de receber de volta o silêncio que permite a violência.

    Daí, o que precisei fazer foi quebrar o meu próprio silêncio.

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    I want to know what is like


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    Religiosidade e feminismo


    por Mazu
     
    Bom, não tenho mais vergonha de dizer: eu acredito em Deus. Já apanhei muito na academia e na militância por isso, mas é bem mais forte que eu. Tentar me declarar atéia sempre me fez sentir como se estivesse mentindo. Ainda assim, acreditar em Deus e ser feminista pode ser um pouco conflitante, também assumo isso. Isso porque os grandes livros (bíblia, alcorão) que embasam algumas das religiões dominantes são bem machistas (de verdade, não quero ofender ninguém com isso). Os grandes profetas, líderes religiosos, na maioria: homens. As mulheres que, em determinada época, manifestaram sua espiritualidade ou cultuaram o feminino são conhecidas historicamente como bruxas. Obviamente, muita coisa vem mudando, existem grupos religiosos que discutem essas questões da religiosidade e dos direitos da mulher, como o Católicas pelo direito de decidir, e o CFêmea também já abordou a questão. Ainda assim, a maioria das religiões tem uma visão muito esquisita da mulher e da sexualidade feminina e da sexualidade no geral. Por exemplo, acredito que Jesus existiu e que foi um cara massa, mas que Maria, sua mãe, não era virgem não e que isso não tem a menor importância. Acredito que Maria Magdalena, a amiga de Jesus, foi uma personagem muito mais importante do que se conta e que podia ter sido sim, namorada de Jesus, sua companheira na vida sexual e de militância, sem problemas. Na boa, isso faz muito mais sentido do que a história "oficial" que nos é contada.

    O espiritismo me deu muito conforto por um tempo porque em sua literatura o que consta é que o espírito não tem sexo e que reencarnamos ora homem, ora mulher, de acordo com o nosso aprendizado/prova/missão na terra. Isso é bem libertador e revolucionário, especialmente, se a gente pensar que se um dia Jesus voltar, seu espírito pode vir num corpo de mulher (talvez isso já tenha acontecido e ninguém tenha lhe dado voz). E as falas e os livros do Chico Xavier também sempre me trouxeram essa visão igualitária e certa paz de espírito. Antes que alguém diga que estou advogando pelo espiritismo vou logo soltar: na prática, nas casas espíritas (as que frequentei pelo menos) não é assim não. As pessoas, no nosso mundinho e na nossa época, ainda usam da sua religião para justificar seus preconceitos. Nunca frequentei nenhuma casa religiosa que recebesse bem os homossexuais ou que não me pedisse resignação com determinadas injustiças relacionadas a preconceitos sociais de gênero ou sexualidade. E sabe aquele desconforto que eu sinto quando minto que não acredito em Deus? Pois é, o desconforto em dizer que Deus compactua com qualquer tipo de preconceito é o mesmo.

    Uma pergunta ainda me persegue: preciso abrir mão de Deus pra ser feminista? Preciso abrir mão da minha sexualidade para acreditar em Deus? Por que cargas d'água essas coisas teriam de ser opostas? Por que a mulher, em algumas religiões, é associada ao diabo? Por que a homossexualidade ou a sexualidade feminina muitas vezes são vistas como coisas das trevas? Da mesma forma, por que as religiões de origem africana ou indígena recebem esse mesmo tipo de rótulo? Sério mesmo, se considerarmos bem a nossa história até agora, eu diria que o mal tem se servido muito bem do homem heterossexual branco, que vem liderando um mundo cheio de desigualdade e atrocidades.

    Ainda tenho muito para dizer e escrever sobre religiosidade e sexualidade, religiosidade e resignação, religiosidade e militância política. A Júlia já escreveu sobre sexualidade e foi muito legal. No geral, preciso deixar claro que nada justifica intolerância em nenhum âmbito da existência humana. E se Deus existe como eu sinto que existe, preconceitos e injustiças não são criações dele não.

    Vou terminar esse post com um vídeo do Chico Xavier sobre sexualidade, gravado nos anos 70 (pasmem!!). E vou dizer mais, o Chico era um cara massa também, massa tipo Jesus, e se ele era homossexual, não tem problema. Nem ele, nem Jesus, nem as Marias e nem ninguém precisa ser assexuado para ser um bom espírito. Sexo e sexualidade, sim, são criações de Deus. 

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    Guest Post: Do sexo viemos e é para lá que voltaremos


    por Júlia Neves

    Sexo é certamente uma das palavras mais temidas e constrangedoras da sociedade moderna. Embora seja natural, ainda que todo mundo faça, todo mundo pense, todo mundo precise, falar de sexo continua a ser um dos maiores tabus para a maior parte das pessoas. No nosso mundinho, sexo bom (e moralmente correto) é aquele contido na caixinha da tríade casamento-reprodução-heterossexual. É pensando na limitação e opressão desta norma que ativistas políticos de São Francisco, Berlim, Barcelona e São Paulo criaram o projeto [SSEX BBOX] sexuality out of the box (sexualidade fora da caixinha), uma série de documentários na internet sobre diversas formas de sexualidade, da perspectiva de diferentes lugares do mundo.

    O projeto tem como principal objetivo discutir sexualidade fora das normas culturais conservadoras, desvencilhando-se de preconceitos comuns que persistem na maioria das abordagens sobre o assunto, como a vergonha e o moralismo. O primeiro episódio, por exemplo, apresenta depoimentos de artistas, pesquisadores e ativistas sobre o que eles entendem como sexo, mostrando que sexo se manifesta de diversas formas na sociedade: entre héteros, gays, lésbicas, bissexuais, transgêneros; na masturbação, na política, na religião e por aí vai.

    O meu preferido até agora é o segundo episódio, que discute sexualidade na infância. Um dos pontos mais enfatizados pelos entrevistados é exatamente a ilusão de que crianças estão alheias ao sexo porque são inocentes. A opinião dos especialistas é unânime: melhor ensinar uma criança que é normal sentir desejo sexual do que ensiná-las a ter vergonha. Em vez de ensiná-las que masturbação é pecado, faz mais sentido explicar que faz parte do conhecimento do corpo.

    Outras questões abordadas pelos mini-documentários são as relações entre política, religião e sexualidade, mostrando como todos nós somos culturalmente moldados pelos discursos que legitimam sexo somente para a reprodução e após o casamento, é claro. Obviamente temos mais opções e liberdades que outras gerações, mas a questão de sexualidade ainda é tabu em diversos aspectos, pois os discursos que prevaleciam no século XIX, já dizia Foucault, ainda pairam o nosso dia-a-dia. 

    Não vou nem entrar no mérito daquele famoso clichê: homens que transam com muitas mulheres são garanhões, mulheres que transam com muitos homens são vagabundas. Mas a questão da homossexualidade, por exemplo. O olhar sobre o homossexual como um doente, anormal e sexualmente pervertido é um preconceito consolidado no século XIX por sexólogos e psiquiatras que tentavam desvendar e explicar o que era o homossexual.

    Por mais absurdo que isso nos pareça nos dias de hoje, esta forma de ver a homossexualidade – como uma aberração – tornou-se tão naturalizada que é frequentemente reproduzida através de comentários que, teoricamente, seriam pró-homossexualidade. Quem nunca escutou a frase: “Não tenho nada contra gays, mas que não se beijem na minha frente”? Este é um comentário homofóbico sim, pois o motivo de estas pessoas não quererem ver homossexuais se beijando é o preconceito de que a homossexualidade é anormal e, de certa forma, errada.

    O [SSEX BBOX] é um projeto extremamente politizado que busca, de fato, quebrar preconceitos e tabus que circulam entre nós. Os documentários mostram que é possível viabilizar diferentes formas de pensar a sexualidade através da educação sexual, ressaltando que há inúmeras maneiras de entender, expressar, praticar e desejar sexo. Os depoimentos dos vídeos são inteligentes, acessíveis e levantam debates importantes sobre o assunto. Até agora, a equipe já produziu quatro episódios, que podem ser encontrados no vimeo, e produzirão mais dez entre janeiro e novembro de 2012. O quinto estreia dia 4 de junho em São Francisco. Esperemos ansiosamente.   

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    Júlia Neves nasceu em Brasília e, desde 2008, vive na Alemanha. Formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis, atualmente é doutoranda em Literatura e Cultura Inglesas na Humboldt-Universität zu Berlin. Desde o mestrado, também cursado em Berlim, ela se dedica a pesquisas sobre representações de homossexualidade e de Londres nas obras dos escritores britânicos Sarah Waters e Alan Hollinghurst. Suas principais áreas de interesse são literatura, línguas, séries de televisão, cinema, teorias pós-colonial, queer, de gênero e feminista.

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    Liberdade de opressão


    por Roberta Gregoli
    Não posso mais falar o que quiser sem ser criticado
    Já falei um pouco das brigas que tenho comprado por não ficar quieta quando ouço piadas preconceituosas. Daí quem contou a piada normalmente lança mão da carta curinga da liberdade de expressão. Engraçado mesmo é que a esses defensores ferrenhos da liberdade de expressão não ocorre que - surpresa - o direito não é só deles. Eles têm o direito de falar o que quiserem (menos incitar o ódio, que é, sim, crime) assim como os outros têm o direito de reclamar, registrar denúncias se for o caso de preconceito, etc. Não parece óbvio?

    Discurso de ódio não é
    liberdade de expressão

    Pois é, mas são diversos os casos que mostram que a liberdade de expressão é mobilizada para escamotear a revolta de uma porção da população que nunca teve que se haver com os limites dos seus privilégios. Um caso exemplar é o do comediante Marcelo Tas, que, apesar de fazer um programa que critica deus e todo o mundo, não aceitou ser criticado e - pasmem - ameaçou processar uma blogueira. Seletiva essa tal liberdade de expressão.

    Numa distorção perversa, a liberdade de expressão, tão cara à democracia, é usada para defender opressores e atacar progressistas

    O mesmo se aplica aos tchuchucos Danilo Gentili e Rafael Bastos. Como diz este ótimo texto, o politicamente incorreto que os dois "comediantes" tanto proclamam beira o fascismo.


    Padrões duplos

    Rafael Bastos foi demitido, não pela piada do estupro, mas pela piada contra Wanessa Camargo. Por quê? Porque o marido dela é amigo da galera do CQC. Veja mais detalhes neste brilhante post. Piada contra mulheres pode, contra a esposa de amigo (poderoso) não pode.

    Danilo Gentili pede desculpas pela piada antissemita, mas o caso da piada racista é arquivado, e até onde eu sei não houve retratação pública. Contra negros pode, contra judeus (de Higienópolis) não pode.

    É isso que em inglês é conhecido como padrões duplos (double standards), isto é, quando uma regra ou código de conduta é aplicado de maneira inconsistente dependendo dos atores sociais envolvidos. O conceito de padrões duplos é, aliás, muito útil nos estudos de gênero:

    Uma época eu achei que era uma vadia, mas então me
    dei conta que só estava agindo como um homem
    Muitas vezes o conceito de padrões duplos é usado impropriamente: "ah, se tem camiseta '100% negro', por que não '100% branco'"? Isso não é um padrão duplo, é babaquice. É como se indignar por não ter um acompanhamento para o seu caviar enquanto o vizinho morre de fome. Como já falei um pouco aqui, não é preciso afirmar identidades privilegiadas simplesmente porque o mundo já é feito por e para elas. Apesar de toda a vitimização dos "pobres" "comediantes" em questão, insistir em afirmar essas identidades é uma maneira perversa de afirmar a opressão

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    Perversidades


    por Roberta Gregoli
    Violência doméstica é tão engraçado
    Tenho comprado muita briga por não ficar quieta quando ouço piadas machistas e sexistas. A última foi com relação a uma crônica do Luís Fernando Veríssimo, que termina com o marido dizendo que vai dar uma surra na esposa. Eu disse para a pessoa que postou a piada que banalizar a violência doméstica não tinha graça, pelo menos não para as 7,2 milhões de mulheres que já foram agredidas no Brasil.
    A cada 2 minutos, 5 mulheres agredidas
    Outra pessoa entrou na discussão e, indignadíssima, disse que mais grave que a violência contra as mulheres era a minha falta de bom senso. Essa afirmação, em si, já é obviamente perversa. Ainda assim, pedi que o cidadão me iluminasse. Notei então que o argumento dele se baseava em dois pontos: 1) que o Veríssimo era magnífico e 2) em insultos pessoais, ex. eu não entendi "nada" e o meu posicionamento (ignorante) era perigoso, quase fascista (!).

    Pois bem, podemos subverter o argumento dele por partes:


    A arte da opressão

    O fato de um escritor ser considerado bom - e aqui vale lembrar que nenhum cânone é imparcial - nada tem a ver com seu posicionamento político. Pode espernear, mas o fato é que Monteiro Lobato era racista e Millôr Fernandes, Henfil, Paulo Francis, Jorge Benjor (só para citar alguns nomes) eram abertamente machistas.

    Causa uma tremenda indignação dizer que as mulheres, em média, são menos inteligentes do que os homens, mas acontece que isso é verdade.
    Millôr Fernandes, 'Barbarelas', O Pasquim, n. 27, dez. 1969

    O diretor D. W. Griffith lançou, em 1915, o filme O nascimento de uma nação, que gerou diversos protestos devido ao seu conteúdo racista. Até hoje esse fato é mencionado. Quando cito a frase do Millôr acima, me respondem que ele estava sendo irônico. A reação é sempre de minimizar, negar, descreditar. A questão, então, é por que temos tanta dificuldade em encarar que artistas, ainda que brilhantes, sejam - para usar um eufemismo - figuras controversas?

    Na época da disputa entre França e Estados Unidos sobre a extradição do Roman Polanski, li um artigo muito interessante que dizia que:

    Na França, os artistas e intelectuais são deuses seculares, tratados com deferência em qualquer circunstância, tenham lá cometido roubos (Jean Genet), feito panfletagem antissemita (Louis-Ferdinand Céline) e estrangulado a mulher (Louis Althusser). 
    Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo, 10/10/2009

    Soa familiar?

    Democracia e/ou Autoritarismo

    Não entendi direito por que o moço da história do Veríssimo me chamou de fascista (ele não conseguiu articular direito o argumento), mas o curioso foi que, ao tentar me silenciar sem muita coerência, ele fez justamente o que condenava. 

    É simples: opiniões distintas coexistindo e sendo discutidas respeitosamente é democrático. Tentar impor opiniões com hostilidade, sem conteúdo ou lógica, é autoritário

    Consenso absoluto só é alcançado através do autoritarismo. dissenso está no cerne da democracia. Importante é discordar sem gerar ódio, alimentar preconceitos e respeitando sensibilidades.

    O que me parece muito grave é a perversidade de distorções como essa e outras parecidas: uma palavra tão carregada quanto censura é usada contra os que levantaram a discussão sobre racismo na obra de Monteiro Lobato (registrando um pedido para análise do Conselho Nacional da Educação, ou seja, um procedimento totalmente democrático).

    E não se esqueçam dos que juram que as cotas raciais vêm introduzir o racismo no Brasil. Vamos negar todas as estatísticas que provam a total predominância da discriminação e voltar a celebrar o mito da democracia racial. Se isso não é perverso, me diga o que é.

    É nessas horas que acho que ainda nem começamos a questionar as consequências da ditadura no Brasil. Ainda nos enrolamos com conceitos fundamentais como censura, liberdade de expressão, resistência, dissenso, respeito - todos fundamentais para o exercício pleno da democracia.

    A hostilidade imediata dos que respondem a qualquer resistência, seja ela de feministas, representantes do movimento negro, etc, mostra que ainda hoje faltam espaços para a discussão de ideias e sobram tentativas de impor o "bom senso" (que na maioria das vezes é outro nome para o senso comum preconceituoso) de maneira autoritária e virulenta.

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    Homens feministas


    por Roberta Gregoli

    Ano passado participei de um simpósio na London School of Economics sobre masculinidade e guerra. Depois de uma das apresentações, alguém da plateia questionou por que era normal vermos cidadãos reivindicando direitos de imigrantes ou ocidentais defendendo a Palestina, por exemplo, mas muito difícil vermos homens feministas. Isso me fez pensar.

    Primeiro, vamos deixar claro, ainda que não tão visíveis, existem sim, homens feministas. Acho também que não é assim tão comum ver um apoio forte a causas alheias. Quanto maior a tensão e as diferenças sociais, mais difícil a identificação com uma causa. Num país racista, por exemplo, é menos comum que brancos defendam o direito dos não-brancos.

    O abismo que nos separa

    Isso leva imediatamente ao cerne da questão. A divisão entre os sexos é uma das mais profundas que experienciamos. Desde antes do nascimento (com os pais correndo para saber o sexo do bebê aos 3 meses de gestação), já somos divididos entre mulheres e homens. A partir daí essa divisão só é reforçada: roupas, cores, brinquedos, comportamentos e sentimentos ensinados como apropriados, profissões, salários, papéis na família.
    A diferença social construída entre mulheres e homens é abismal e, mais importante, tida como natural. Para o feminismo, a natureza tem um papel bastante limitado nessa equação. Há discussões interessantíssimas sobre como o gênero - e mesmo o sexo - são constructos sociais e históricos.

    À ideia de que mulheres e homens são naturalmente diametralmente diferentes, somamos que o feminismo é muitas vezes reduzido à ideia de competição. Na velha novela da guerra entre os sexos, as feministas querem "ser homens" ou "dominar os homens". Dentro dessa lógica babaca, homens feministas estariam aceitando e defendendo a dominação feminina. Ignorância brutal. O que nós, feministas, queremos é outra coisa.

    Uma versão extrema dessa lógica são os grupos "masculinistas" (que nada mais são que grupos de ódio). O primeiro problema é que esses grupos pressupõem que a igualdade já existe, o que não é verdade. Não é preciso defender os direitos daqueles que já têm seus direitos assegurados e isso vale também para o dia do orgulho hétero, da consciência branca, etc. O mundo é feito por e para homens brancos heterossexuais. Qualquer afirmação dessas identidades privilegiadas é um desrespeito às minorias que lutam por um mínimo de justiça e equidade.

    Como os homens se beneficiam com o feminismo

    O "masculinismo" ignora que o feminismo, ao subverter as categorias de gênero, liberta também os homens para ocuparem outros papéis sociais, e demanda que instituições criem políticas e ações mais igualitárias para os dois sexos.

    Para os homens, isso significaria licença paternidade decente (5 dias serve para quê?), se libertar do fardo do papel de provedor, poder gostar e fazer coisas tipicamente tidas como femininas (roupas, comédias românticas, ter vaidade, etc), poder escolher trabalhar em casa, e assim por diante.

    Nenhum homem vive isolado. Direitos iguais significam mais respeito e oportunidades para as mulheres que os homens amam: esposas, companheiras, mães, filhas, amigas, familiares. Como é criar uma filha sabendo que, por mais oportunidades de estudos que possamos oferecer, ela ganhará 30% menos que um homem? E que estará muito mais propensa a sofrer violência física de seu companheiro?

    Ou criar um filho sabendo que ele pode ser agredido e expulso da escola por dançar balé e que terá 4 vezes mais chances de morrer durante a juventude?

    Não é verdade que os homens não querem mudar.
    É verdade que muitos homens têm medo de mudar.
    É verdade que uma infinidade de homens sequer
    começaram a entender como o patriarcado os impede
    de conhecerem a si mesmos, de estarem em contato
    com os seus sentimentos, de amarem.
    bell hooks, The Will to Change: Men, Masculinity and Love, p. xvii (minha tradução) 

    É claro que o poder da cultura é tão forte e profundo que, mesmo sem querer, todxs estão sujeitxs a reproduzir ideias opressoras. É por isso que não basta não querer ser machista - é preciso estar continuamente pensando gênero de maneira crítica.

    Por isso, proponho: Subverta-se!

    É assim que um feminista se parece