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Por que não há mais mulheres comediantes no Brasil

por Roberta Gregoli


A guerreira Dani Calabresa

Curti os comentários de um dos meus textos anteriores, sobre humor e escatologia. Talvez meu ponto principal não tenha ficado muito claro: não que eu ache que "falar merda" seja intrinsicamente bom, mas que precisamos de mais mulheres falando merda. Em outras palavras, argumentei contra um moralismo que obrigada as mulheres a se conformarem a estereótipos de delicadeza, timidez e contenção.

Em geral, a divisão entre o que é 'apropriado' falar na intimidade e publicamente não é só pessoal mas também cultural, e pode ser bastante repressora, principalmente para as mulheres. Basta ver aqui o depoimento da Dani Calabresa sobre mulheres fazendo comédia. Ela diz:

Eu acho que a sociedade permite que os homens sejam loucos e engraçados desde sempre. Então é bonito um menino falar palavrão, é bonito um menino arrotar, soltar pum. A menina que faz isso é louca. A mulher tem medo de se expor ao ridículo. Eu sempre fui mais moleca, eu era gorda, louca, queria fazer os outros rir. Para mim era normal, mas a mulherada quer passar maquiagem, quer ficar bonita. Hoje eu sou mais vaidosa do que há muito tempo atrás. Na TV as pessoas me produzem, gente, me penteiam, eu não sabia fazer nada disso.

Aliás, o vídeo do qual este depoimento foi tirado me chocou tanto que resolvi analisá-lo em detalhe. Veja na íntegra:


0m01s

Dani Calabresa é apresentada como pizza nos seguintes termos: "O motoboy já entregou a nossa pizza?" Justo, podem dizer, já que esse é o nome artístico dela. Mas será que a mesma piada se aplicaria a um comediante homem chamado, sei lá, João Melancia? "O fruteiro já entregou nossa melancia?" Me cheira a padrão duplo.

1m

A segunda piada machista é do desagradabilíssimo Marcelo Mansfield, sobre as vezes em que "comeu calabresa". Duas piadas machistas em menos de 1 minuto e meio.

1m23s

Eu AMO quando ela responde no mesmo nível e diz que não faz "nenhum personagem tão bem como o Mansfield se faz de homem... Quase engana". Vale a pena ver o vídeo só por esse fora e pela expressão no rosto dele.

2m33s

Danilo Gentili, já citado aqui por sua piada racista, insinua que ela dormiu com alguém da MTV para manter o emprego. Ela não se submete e responde de novo à altura e com convicção, entrando na brincadeira e, por consequência, ridicularizando a fala dele.

3m23s

Ela desafia Mansfield de novo, esfregando o currículo na virilha. Referências a vagina são sempre tabu e achei ótimo ela usá-la contra o misógino de plantão.

5m20s

A câmera dá um close up longo nas pernas dela. Alguma dúvida de que isso nunca aconteceria com um humorista homem?

5m30s

Referência a quando a humorista era "gordinha". Sem comentários.

7m08s

Mansfield faz uma piada inteligentíssima #not sobre a "dicção" dela, subentende-se voz aguda, ou seja, de mulher. Ela, como sempre, responde na lata: "Você tem que ligar o aparelho auditivo". Muito menos criativo e perspicaz, Mansfield responde "haha, como você é engraçada, Dani". Coitado.

7m33s

Danilo Gentili pergunta se a Playboy nunca a procurou. Claro, porque mulher não pode só ter talento, tem que "mostrar o talento" na mente mesquinha dele.

7m55s

A partir desse momento a questão do gênero relacionada ao humor entrar em cena aberta e diretamente e Gentili diz que Dani é a melhor humorista mulher do Brasil.

8m11s

Mansfield mina a afirmação de Gentili, dizendo um "é" irônico. De novo, ela responde rápida e certeira: "Quer meu posto, né?" Ele responde dizendo que não é tão masculino. Ahn? O assunto não era a melhor humorista mulher? Melhor dar a ela o título de melhor humorista, ponto. Os dois homens humoristas desse programa, pelo menos, ficam léguas na retaguarda em comparação à rapidez, ousadia e inteligência dela.

8m30s

Gentili pergunta por que não há tantas mulheres humoristas no Brasil e Dani Calabresa dá o depoimento transcrito acima.

9m25s

Mansfield insinua que ela não é talentosa, por isso precisa se maquiar. Mais uma piada machista, sem contar o bullying.

9m32s

Gentili pergunta se foi o casamento que a deixou mais vaidosa e ela, para mim infelizmente, diz que sim.

10m27s

Mais uma piada abertamente machista: Gentili diz que amarrou uma vassoura no microfone para ela fazer stand-up. Inaceitável.

11m22s

Gentili insinua que ela se prostituiu para ganhar a vida. Inaceitável e tosco.

13m20s

Gentili pergunta quando ela terá um bebê. Por que as pessoas se sentem no direito de tal invasão da privacidade alheia quando se trata de ter filhos? E alguém imagina a mesma pergunta sendo feita a um homem na mesma situação? #padrãoduplo

13m30s

Roger, da banda, passa uma cantada. Pessoas, se liguem: cantada não é elogio, é desrespeito. Ela reage, deixando o cantador sem graça #yes

14m12s

Gentili diz que, na época (quando ela era gorda, entende-se), a única maneira de dar no couro para ela era "entrar no coro". Inaceitável.

16m17s

Márcio Ribeiro, outro comediante convidado, a assedia sexualmente, no que é, para mim, o momento mais chocante do programa. Passar a mão na perna de maneira indesejada é assédio sexual. E fica claro pela expressão e reação dela que a ação é indesejada e não consensual.

18m32s

Ela faz piada sobre o pênis do marido, sinalizando a própria vida sexual. "É como andar de banana boat todo o dia!" Como é bom ter mulheres fazendo piadas sobre sexo de maneira não leviana.

Contagem final


Em menos de 21 minutos, uma artista consagrada tem que passar por:

  • 11 piadas machistas
  • 7 ocorrências de bullying
  • 1 take voyeurístico do seu corpo
  • 1 ocorrência de assédio sexual
Tudo em rede nacional.

E ainda perguntam por que não há mais mulheres comediantes no Brasil.


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Dois ou três exemplos de equidade e o direito dos homens

 
por Mazu


Este fim de semana, conversei com uns amigos e percebi que tem gente que está sob a impressão muito nítida de que o feminismo trabalha única e exclusivamente pelo direito das mulheres. Levando em conta os papos e as impressões, eu pensei que seria interessante, se trouxéssemos alguns exemplos de como reivindicações de equidade entre gêneros produzem benefícios para todos, atualmente e historicamente. A gente fala toda hora, mas não custa repetir: a grande bandeira do feminismo é a  equidade, o que significa que lutamos pelos direitos de todo mundo de ser tratado igual quando for igual e diferente quando for diferente. O que acontece é que as mulheres ainda representam uma minoria política e social, e isso fica um pouco mais evidente na luta. Mas, na verdade, a equidade é equidade para homens e mulheres.


Em agosto deste ano, a Previdência Social do Rio Grande do Sul concedeu, depois de recurso pela via administrativa, o salário maternidade para um homem em uma união homoafetiva. Depois disso, em setembro, um homem que perdeu a mulher durante o parto obteve o mesmo benefício, dessa vez em recurso judicial. Seria melhor que a lei fosse mais abrangente e não dissesse que o benefício é devido “para a empregada segurada” e sim “para o empregado ou empregada segurada”, mas as decisões do juiz e da previdência social de RS são válidas, históricas e muito significativas. Quem sabe não se inicia um debate que culmine na alteração da letra da lei? Ia ser uma grande vitória. E de qualquer forma, enquanto o dia de alterar a lei não chega, acho que devemos ver as decisões jurisprudenciais como vitórias também.

Alguém poderia argumentar que salário-maternidade e licença-maternidade são, de fato, direitos da criança, não da mãe. Fato, é por isso que não se pode "vender" dias de licença-maternidade como é possível fazer com as férias porque o direito não é exclusivamente da trabalhadora. Mas, vale à pena citar, tendo em vista que esses pais conseguiram o direito de ficar com seus filhos de maneira justa e sem sacrificar seus direitos ou situações laborais.

Campanha pela extensão da licença-paternidade que, hoje,
são de mísero cinco dias
O segundo exemplo é mais histórico e bem interessante. Acho que todos já ouvimos falar da pensão por morte. Quando alguém que é segurado da previdência social morre, seus dependentes têm direito à pensão por morte. O que quase ninguém ouviu falar é que, antigamente, os maridos só recebiam a pensão por morte das esposas seguradas se fossem totalmente ou parcialmente inválidos ou incapacitados para o trabalho. Né? Por que onde já se viu, marmanjo precisar de ajuda para se manter? Foi somente com a lei número 8212 de 1991, sob a égide da nova Constituição Federal de 1988 que tem como um dos seus princípios a equidade, que isso mudou. Imagina se isso ainda valesse hoje, em que aproximadamente 10,8 milhões das unidades familiares no Brasil são mantidas e sustentadas por mulheres? Se a companheira morresse, o companheiro perderia grande parte ou toda a renda da família (supondo que seja um dos 10,8 milhões de casos citados acima), sem nenhuma espécie de compensação ou auxílio.

Eu leio sobre essas coisas e fico realmente feliz. Podem ser sinais pequenos, mas são sinais verdadeiros de mudança, de que nossa luta compensa. A gente escuta muita barbaridade e ofensa todo dia, como se fôssemos loucas e desvairadas numa sociedade "livre" (my ass) de preconceito e discriminação. Então, acho que devemos celebrar algumas pequenas vitórias. Inclusive de/para/com os homens que nos são caros e importantes! ;)

Equidade (Dicionário Houaiss)
1    apreciação, julgamento justo
1.1    respeito à igualdade de direito de cada um, que independe da lei positiva, mas de um sentimento do que se considera justo, tendo em vista as causas e as intenções
2    virtude de quem ou do que (atitude, comportamento, fato etc.) manifesta senso de justiça, imparcialidade, respeito à igualdade de direitos
Exs.: a e. de um juiz
 a e. de um julgamento
3    correção, lisura na maneira de proceder, julgar, opinar etc.; retidão, equanimidade, igualdade, imparcialidade 

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Casamento homossexual e zoofilia: os fantasmas das pessoas de bem

por Barbara Falleiros

Infelizmente o  preconceito, a má fé e o ódio não são atributos exclusivos dos colunistas da Veja. Como já comentado aqui no blog, recentemente J. R. Guzzo, da maior revista de desinformação do país, fez um ataque grosseiro à luta pela igualdade de direitos dos homossexuais. Ele escreveu, defendendo a impossibilidade de casamento civil entre pessoas do mesmo sexo:

(...) o casamento, por lei, é a união entre um homem e uma mulher; não pode ser outra coisa. Pessoas do mesmo sexo podem viver livremente como casais, pelo tempo e nas condições que qui­serem. Podem apresentar-se na sociedade como casados, celebrar bodas em público e manter uma vida matrimonial. Mas a sua ligação não é um ca­samento — não gera filhos, nem uma família, nem laços de parentesco. Há outros limites, bem óbvios. Um homem também não pode se casar com uma cabra, por exemplo; pode até ter uma relação estável com ela, mas não pode se casar.

Propaganda de uma marca de sapatos:
"Como dizem as minhas duas mamães,
 a família é sagrada."





Ora, ele baseia seu argumento na definição da lei quando a questão é justamente a alteração da lei. Mas antes fosse apenas uma mostra de sua inabilidade de raciocínio lógico... A má fé está na apresentação de uma realidade fantasiosa que desacredita as reivindicações, como se todos os direitos já tivessem sido conquistados. A manobra é bem conhecida: "os negros não precisam de cotas, falta-lhes é força de vontade" (e não condições) ; "as mulheres não precisam lutar por nada, hoje em dia trabalham e são livres" (mas cumulam jornadas e recebem menores salários); "os gays não precisam se casar, eles podem morar junto" (e @s companheir@s seguem sem proteção jurídica).

Num estado democrático laico, o casamento é antes de mais nada um contrato que serve para promover a assistência mútua entre o casal, regular as relações sexuais e os deveres para com os (eventuais) filhos resultantes da união. É enganoso pensar que, sem o respaldo da lei, um casal - mesmo heterossexual - possa "viver livremente". A organização da vida em comum, em família, envolve uma série de aspectos práticos que precisam ser assegurados juridicamente: impostos, licenças, pensões, seguros, aquisições, etc. Quanto ao que se denomina família, podemos realmente pensar que a ideia de uma configuração familiar única (papai-mamãe-filhinhos) encontra uma correspondência real no mundo de hoje? E quanto aos casais hétero que não desejam ou não podem ter filhos? E quanto às crianças criadas pelos avós ou tios, mães solteiras, famílias recompostas com meio-irmãos, não são famílias também? Por que não duas mães ou dois pais? Na psicologia de fila de supermercado, a tendência à patologização da homossexualidade estende-se aos filhos de homossexuais: "a criança vai ter problema se não tiver um pai e uma mãe". Uma montanha de estudos desmente esse tipo de mito. O problema, na verdade, é gerado pelo preconceito:
Nós fomos amados, e todas as pessoas que nos cercam e que nos cercaram desejaram o melhor para nós. Nós aprendemos a generosidade, a tolerância e o altruísmo, pois fomos criados no coração desses princípios. E nós temos orgulho desta educação. (...) A única coisa que poderia ter-nos desequilibrado, e falamos por experiência própria, é o olhar homofóbico de uma sociedade e de grande parte daqueles que a compõem. [Carta de dois filhos adultos de uma mãe lésbica]
As três grandes religiões monoteístas mantêm, é claro, um discurso conservador, condenando moralmente a homossexualidade como um atentado à família. Mas mais do que uma questão moral, a discussão a respeito do casamento entre pessoas do mesmo sexo deve ser jurídica e política (e, cá entre nós, a mistura entre religião e política só resultou nos grandes massacres da história).

Nos últimos dias, na França, a vontade do governo de aprovar o casamento entre homossexuais - e permitir a adoção - tem inflamado os ânimos adversários, principalmente católicos. Sábado passado, uma grande manifestação impulsionada pela Igreja católica levou às ruas milhares de famílias modelo com crianças penteadinhas. Eles carregavam balões e cartazes rosa e azul, com bonequinhos sexuados de mãos dadas representando a família - mais generificado impossível!

Santo biologismo: "Todos nascidos de um homem e de uma mulher";
"Nem genitor A, nem genitor B: pai e mãe!"
Em seguida, no domingo, houve uma caminhada de integristas católicos (ligados à extrema direita), com um viés bem mais agressivo. Eles gritavam: "Primeira, segunda, terceira geração! Somos todos filhos de héteros!". No final, militantes do Femen que contramanifestavam acabaram apanhando, assim como uma famosa jornalista e militante feminista, Caroline Fourest. De acordo com a jornalista, um padre chegou a incentivar os agressores dizendo "Vão lá mostrar sua virilidade", enquanto esses gritavam "Odiamos sapatões!"

Mas voltemos um instante ao texto de Guzzo. Ele conclui o trecho citado com uma referência à zoofilia. Para ele, homossexuais não podem se casar assim como um homem não pode se casar com uma cabra, como se o relacionamento entre duas pessoas do mesmo sexo fosse equivalente ao relacionamento entre um homem e um animal. Neste ponto, infelizmente, ele também não está sozinho. Há quinze anos, discutia-se na França a adoção de uma nova forma de união civil entre pessoas de mesmo sexo ou de sexo diferente, o PACS (Pacto Civil de Solidariedade). Um deputado propôs então que os contratos fossem assinados "nos serviços veterinários". No ano passado, uma deputada francesa da UMP, partido de [centro-]direita do ex-presidente Sarkozy, disse no meio da Comissão de Leis da Assembleia Nacional, a respeito do casamento gay: "E porque não uniões com animais?"

E depois do arcebispo de Lyon, que teme que a liberação do casamento homossexual abra caminho para a aceitação do incesto, foi a vez dos Irmãos Muçulmanos franceses precaverem contra os perigos dos amores desnaturados: "Se o casamento entre duas pessoas do mesmo sexo se tornar uma norma, então poderão emergir as reivindicações mais incongruentes. Quem poderá deslegitimar a zoofilia, a poliandria, em nome do sacrossanto amor?" Nuance: para os seguidores do Profeta, o horror está na poliandria (casamento de uma mulher com mais de um homem). Quanto à poligamia... Inch Allah!

Uma outra política da UMP, esta da mais pura tradição católica, também insinuou recentemente que a homossexualidade leva à poligamia. Mas deixemos de lado o fato de ela ter tido três filhos com seu primo (saibam os desavisados não há nada de incestuoso nisso: primo pode. Amém). Um de seus colegas de partido, subprefeito de um bairro parisiense, escreveu em carta à população: "Como se opor, amanhã, à poligamia na França, princípio que só é tabu na sociedade ocidental? Por que a idade legal mínima para se casar seria mantida? Por que proibir os casamentos consanguíneos, a pedofilia, o incesto, que são moeda corrente no mundo?"

Poderia até ser engraçado ver-lhes espernear seus medos e obsessões, não fossem essas pessoas detentoras do poder. Seus fantasmas morais e sexuais formam amálgamas cujas consequências são nefastas para os principais interessados, os que fogem à "norma" heterossexual, é claro, mas para a sociedade como um todo, que segue cruel e injusta. No fim das contas, pode-se medir o quão violenta é esta assimilação do projeto de vida de duas pessoas ao ato sexual com animais? Dois homens, duas mulheres ou um homem e uma cabra: dá no mesmo. Julgados imorais, os homossexuais não são privados apenas de seus direitos civis, mas de sua própria natureza humana.




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Os filósofos iluministas e a mulher - a contribuição de Adília Maia Gaspar

por Tággidi Ribeiro

Não só as religiões trataram de produzir discursos que, digamos assim, 'esquentassem a chapa' das mulheres. Desde nos dividir entre santas e putas e nos culpar por sermos estupradas a nos obrigar a pagar (com nossos corpos) dívidas de outros homens da casa - as religiões complicaram e muito as nossas vidas. As tais não são, contudo, as únicas culpadas (para usar vocábulo apropriado) por termos sido massacradas* ao longo da história. Não só os religiosos, mas também alguns (muitos) filósofos fizeram o favor de tentar justificar o tratamento vilipendioso dado às mulheres.

No livro A Representação das Mulheres no Discurso dos Filósofos: Hume, Rousseau, Kant e Condorcet, a portuguesa Adília Maia Gaspar reúne textos desses quatro filósofos iluministas sobre a mulher. Que ninguém pense em relativizar historicamente o pensamento desses homens (brincando sério): são todos contemporâneos e ainda assim têm visões distintas acerca do valor da mulher na construção da sociedade e como ser humano. O chato, na verdade, é saber que as ideias mais machistas foram as que mais ganharam adesão, sendo publicizadas pelos grandes meios e repetidas à exaustão pelos ogros de hoje.

Kant
"Mulher tem que ser bonita" - agora o povo do boteco vai poder falar de boca cheia que quem disse isso foi Kant. Bem, ele não disse exatamente dessa forma - ele separou os gêneros em belo e nobre. A mulher (o belo sexo), segundo Kant, é naturalmente mais bela que o homem e pouco capaz de pensar. O homem (o sexo nobre) é naturalmente mais dado à filosofia que a mulher, e nem de longe tão belo. Para que os pares não parecessem muito díspares, Kant recomendava à mulher ganhar algum verniz intelectual; ao homem, recomendava que estivesse limpo e arrumadinho.

Rousseau
"Lugar de mulher é na cozinha" - Rousseau dizia que as mulheres tinham uma tendência natural a obedecer. Se elas eram mais fracas fisicamente, isso era sinal de que deviam ser submetidas aos homens (interessante o filósofo que questiona o direito da força dizendo isso, não?). Já que as mulheres tinham nascido dóceis e fracas, Rousseau achava que elas deviam ser ensinadas a serem boazinhas, agradáveis e a cuidarem da casa.

Hume e Condorcet, contemporâneos mais esclarecidos desses dois outros famigerados filósofos das luzes, atribuíram à pressão social o fraco desejo sexual e o recato, à época considerados naturais nas mulheres (Hume) e pretenderam que o direito à educação e ao voto fossem garantidos igualmente a homens e mulheres (Condorcet). Este chega a defender uma ideia completamente absurda para os homens do século XVIII e que ainda hoje não é aceita por todo mundo: a de que mulheres também são capazes de fazer-se cientistas e filósofas. Para prová-la, refere professoras de medicina e filósofas do século XVII, estigmatizadas e posteriormente proibidas de frequentar as universidades.

Condorcet
Verdadeiramente revolucionárias em sua época, as palavras de Hume e Condorcet foram escarnecidas e providencialmente esquecidas. Ainda bem que mulheres conscientes como a Adília Maia Gaspar perceberam a importância fazer esse trabalho de rememoração, buscando na história do pensamento masculino a história da mulher. Como povos conquistados, nós mulheres precisamos ler as entrelinhas da história do conquistador para construir a nossa história. Precisamos, sobretudo, contestar a narrativa do conquistador.



*Falar em massacre de gênero não é exagero: nos proibiram a educação, fomos varridas da vida política, submeteram-nos ao confinamento doméstico, reprimiram nosso desejo mas repetidamente nos violentaram, e, quando quisemos nos revoltar, nos mataram.

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Gaddafi e Jimmy Savile - poder para estuprar

por Tággidi Ribeiro

Estupro é um desses assuntos de que a gente odeia falar. É tão cruel, tão invasor que mesmo sem a gente ter passado por ele, prefere não comentar. Quem sabe, não 'dando ideia', os homens parem de estuprar mulheres (e homens). Pra maioria das pessoas, na verdade, é tão difícil lidar com a questão do estupro que o caminho é sempre imaginar que houve um mal-entendido - que a vítima insinuou que queria sexo e tal, por isso o estuprador fez sexo com ela. Mas ele não tinha a intenção de estuprar. Imagina.
Quando os pagodeiros do grupo New Hit foram acusados de violentar duas adolescentes de dezesseis anos, muitos homens e sobretudo mulheres disseram que 'eles não precisavam fazer aquilo'. Da mesma forma, algumas pessoas deploraram os estupros cometidos por um jovem em Copacabana, afinal de contas, 'não ia ser muito difícil pra ele arranjar mulher'. Por trás desse tipo de declaração, reside a ideia de que homens estupram porque estão precisados de sexo. Mas não. Estupro é poder. Estupro se dá quando alguém julga ter propriedade sobre o corpo do outro.

O ex-ditador líbio Muammar Gaddafi e o ex-apresentador britânico Jimmy Savile, ambos mortos, sabiam muito bem disso. Durante quarenta anos, os dois estupraram centenas (talvez milhares) de meninas e mulheres. A seu lado, cúmplices de décadas de violência, estiveram o poder e a complacência do mundo quando crimes são perpetrados contra mulheres, ainda vistas como menos humanas que os homens.
A história de dominação do corpo feminino por Gaddafi é contada pela jornalista francesa Annick Cojean no livro O Harém de Kadafi, lançado no Brasil há duas semanas. O ditador líbio usou seu poder para ter a mulher que quisesse, sem jamais considerar que essas mulheres também tinham suas vontades. Dentre outros expedientes usados para achar suas presas, Gaddafi passava horas olhando álbuns de fotos de festas, marcando as mulheres que lhe agradavam. Depois, seus soldados iam buscá-las. Ele também visitava escolas onde, com apenas um toque, indicava a(s) adolescente(s) escolhida(s). Caso de Soraya, tocada por Gaddafi aos quinze anos e liberta aos vinte, durante a revolução líbia. Triste fim a liberdade, de qualquer forma: tendo perdido a virgindade, maior 'bem' da mulher aos olhos muçulmanos, Soraya não poderá casar (destino de toda muçulmana 'pura'). Além disso, como outras tantas desvirginadas, estupradas e descartadas por Gaddafi, Soraya foi rechaçada por sua família - que serventia tem uma mulher que deve ser sustentada pela família?

Já Jimmy Savile usou de sua influência, carisma e poder como apresentador na BBC para dar vazão à sua pedofilia latente (abusava de meninas adolescentes e crianças). Quando morreu, no fim de outubro deste ano, era tido como benfeitor católico, ainda que excêntrico. Dizia que não gostava de crianças para que não fosse perseguido por 'pessoas de tablóides'. Logo após sua morte, denúncias de abuso e estupro começaram a aparecer. Em pouco mais de um mês, mais de quatrocentas vítimas se apresentaram à polícia. Até mesmo a neta de Jimmy Savile declarou ter sido alvo de suas investidas. Além do apresentador, mais três funcionários da BBC foram presos acusados de abusos sexuais.  

Vendo notícias tais, compartilhando-as com vocês, o que penso: neste exato momento, quantos políticos e quantos apresentadores e quantos quaisquer homens em situação superior estão estuprando mulheres e meninas? Quantas histórias parecidas já ouvimos? E por que não damos respaldo às vítimas? Por que, antes de qualquer coisa, queremos saber se elas têm 'alguma culpa no cartório'? Pergunto ainda: vamos viver o resto de nossa história desculpando padres, políticos, empresários, homens pelo mundo afora, aceitando seu comportamento pérfido, desde que gerem empregos, ou sejam artistas, ou sejam simplesmente 'homens bons'? São eles homens bons se abusam e estupram? Vamos protegê-los se são nossos pais, irmãos, amigos? Por quê? São mais gente, são mais dignos, são melhores que nossas irmãs, mães, amigas violadas?

Estupro não é sexo, não é necessidade de sexo. Estupro é um crime de poder. Pode ser cometido por qualquer pessoa que sinta a necessidade de subjugar outra. É cometido por homens em nossa sociedade porque ensinamos a eles que devem estar sempre no comando. Ensinamos também que mulheres não são tão importantes assim, devem sempre obedecer.





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Veja que lixo

por Roberta Gregoli

Pura estupidez ou algo mais?
Eu tinha planejado continuar falando de humor, mas é claro que o texto homofóbico da Veja não poderia passar batido neste botequim.

O texto teve imensa repercussão nas redes sociais, gerando memes como a figura acima, a trend #vejaquelixo no Twitter, um protesto virtual no Facebook que já conta com mais de 4 mil participantes e até uma paródia envolvendo Hitler. Não vou falar sobre o texto em si porque acho que os principais problemas, inclusive os de ordem lógica, já foram muito bem abordados aquiaqui.

Faço minhas as palavras do deputado Jean Wyllis quando diz que "[o]s argumentos de Guzzo contra o casamento igualitário seriam uma confissão pública de estupidez se não fosse uma peça de má fé e desonestidade intelectual a serviço do reacionarismo da revista Veja". É esta desonestidade intelectual que me interessa, da qual o texto da Veja é sintoma e reforço. 

Primeiro porque o colunista que escreveu o texto não é um repórter pouco experiente e ingênuo, como pode a princípio parecer pelo tom retrógrado e desinformado de seu texto. Segundo a própria revista:
A história de José Roberto Guzzo, que assina suas colunas com as iniciais J.R., confunde-se com a de VEJA. De 1976 a 1991, por quinze anos, portanto, Guzzo foi diretor de redação da revista. Há seis meses ele voltou como colunista e agora, com sua análise rigorosa e fundamentalmente bem escrita, passa a revezar com Pompeu na última página [...].
Veja
, 05/08/2008 na edição 497

Para os que dizem que não devemos comentar para não dar mais visibilidade ao caso (isso quando não lançam mão de uma ideia distorcida de liberdade de expressão, que, em outro momento, eu chamei de liberdade de opressão), é bom explicitar a abrangência do artigo. A revista Veja é a mais lida do Brasil com uma tiragem de 1.203.766 exemplares, sendo 923.219 assinaturas. Não comentar, neste caso, é deixar que a posição da revista, que chega na casa de quase 1 milhão de pessoas semanalmente, passe como perspectiva única e inquestionável. Precisamos fazer muito, muito barulho.

E barulho virtual é barulho que se ouve. Para provar o papel das mídias alternativas definindo os rumos do Brasil, nada melhor do que o exemplo de José Serra. A compra do apoio, desvelado e sem apologias, da grande mídia não foi o suficiente para convencer os eleitores, e Serra terminou a eleição para a prefeitura de São Paulo tendo a si mesmo como pior adversário. Com um índice de rejeição de 30% em junho, o número chegou a 52% em final de outubro, tornando sua eleição matematicamente inviável, independente do adversário.

Serra da Veja
O papel das mídias alternativas foi fundamental neste processo, seja divulgando a publicação do livro A Privataria Tucana, totalmente boicotado pela grande mídia, seja mostrando, através do uso do humor, Serra sob uma luz menos amistosa:

Serra das redes sociais
#Serraloko
É normal e mesmo positivo que existam canais de tendência conservadora, afinal, vozes plurais são necessárias numa democracia. O problema é que na mídia tradicional brasileira o espaço é desproporcionalmente ocupado para uma única voz. Veja, por exemplo, este 'debate'. Os 'debatedores' incluem o próprio J. R. Guzzo e Reinaldo Azevedo, o mesmo que defende, em seu blog ("um dos mais acessados do Brasil"), o pastor Silas Malafaia com títulos tragicômicos como "O combate à homofobia não pode ser 'catolicofóbico', 'evangelicofóbico', 'diferentofóbico'. Ou: Movimento gay quer passar de beneficiário da liberdade de expressão à condição de censor?".

Coloco a palavra debate entre aspas porque, como não há pessoas com opiniões divergentes, ela não se aplica. Mesmo fisicamente, os 3 'debatedores' e o moderador se assemelham: são todos homens, brancos, de meia-idade para cima. Em vez de 'debate' deveriam usar 'bate papo' ou 'troca de figurinhas'.

Veja redefinindo a palavra 'debate', que passa a
significar 'tapinhas nas costas entre compadres'
Eu já defendi em outra ocasião que esse discurso perversamente distorcido, imposto com uma linguagem agressiva, e, em última instância, ignorante, como o exemplificado pela Veja são legados da ditadura militar brasileira, pois se trata de um discurso de legitimação de uma tradição que tem na sua base a quebra dos direitos humanos.
Se o paralelo parece tênue, basta acessar o acervo da revista para achar a capa de 13/08/1969 (ao lado). A revista rotula de terroristas os grupos de oposição à ditadura militar. Os ataques ferozes e por vezes infundados a figuras como Lula da Silva e Dilma Rousseff são, então, muito mais que incidentes isolados, efeitos de uma tendência política histórica.

Como o texto de Guzzo muito bem ilustra, essa tendência é violentamente reacionária e se sustenta mantendo os leitores da revista ignorantes (já que muitas vezes as reportagens se baseiam no senso comum e não trazem nenhum indício de opiniões diversas) e preconceituosos (já que legitimam discursos de ódio). Trata-se de uma mídia sustentada, enfim, pela desinformação.

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Saúde feminina: entre humilhação e controle

por Barbara Falleiros

Era uma vez, na Bahia, uma mulher pobre e gorda. Ela vai ao médico para tentar emagrecer e ele escreve na receita: "cadialina". Em seguida, explica que é um cadeado para a boca, um para a geladeira, outro para o armário... E que se a paciente não quiser os cadeados, que faça jejum quatro dias na semana e, nos outros três, beba apenas água. A dona de casa, humilhada, presta queixa ao Conselho Regional de Medicina. O médico se defende, fora mal interpretado!

O que acontece, na verdade, é que a dona de casa é burra e louca. Sim, sim, palavra do doutor. Incapaz de entender uma linguagem figurada porque vem de "uma comunidade que não tem sensibilidade para abstrair as coisas", sentiu-se humilhada e ficou deprimida porque apresenta "um estado psicopatológico", "uma sensibilidade psíquica", "um quadro psicológico delicado que não cabe, por uma questão de ética, ser levado a público" (mas agora já foi). O doutor ama seus pacientes, garante. Ama até a jornalista.


Ao comentar esse caso aqui, num blog feminista, esclareço que não estou dizendo que o médico tratou a paciente mal "porque ela é mulher". Neste caso, não necessariamente [A gente tenta não ser daquelas cabeças simplistas que só martelam a sua causa: Choveu no feriado! Tudo culpa do PT! A Dilma não quer que a gente desça para a praia!]. Embora esta carta na manga do "problema psicológico" seja frequentemente lançada quando se trata de uma mulher - veja abaixo - e que a gordofobia atinja as mulheres em cheio, muitas pessoas vulneráveis - homens, mulheres, adultos, idosos -  são menosprezadas por maus médicos que se aproveitam do poder que lhes garante o conhecimento. Em outras palavras, quem nunca foi tratado como imbecil por um médico arrogante? Nem precisa ser mulher para isso. [ಠ_ಠ]

Mas mesmo que este caso não implique necessariamente preconceito de gênero (e mais um preconceito de classe), ele me fez pensar em uma outra história que ouvi de uma resposta médica grosseira e ofensiva. Nos tempos idos da pré-pílula, já com uma boa dezena de filhos, uma senhora respeitável ousa perguntar ao seu médico, à meia-voz: "Doutor, como eu faço para não ficar mais grávida?" E ela ouve como resposta: "É fácil, basta a senhora colocar uma boa tábua de madeira no meio da cama, para separar a senhora do seu marido." 

Esta história, por sua vez, lembrou-me de uma cena que marcou o primeiro episódio da série Mad men, ambientada nos anos 60. Uma jovem solteira, Peggy, visita um ginecologista em busca de contraceptivos. O médico, com seu olhar condescendente, diz algo assim: "Mas escute bem, se você abusar, eu corto o medicamento. É para o seu bem! Mulheres fáceis não arrumam maridos."  Quanto a uma outra personagem, casada e com uma vida suburbana "perfeita" que esconde mal o seu vazio, esta acaba indo ver um psiquiatra que, em seguida, relata o que ela disse nas sessões ao seu marido...


Humilhação, controle do corpo e da psique femininos. Esta dinâmica parece funcionar há muito tempo quando a questão é a saúde da mulher. Da histeria freudiana (distúrbios sensoriais causados por uma forte instabilidade emocional feminina) à prática rotineira da episiotomia durante o parto hospitalar, passando pelo tratamento de doenças majoritariamente femininas como a fibromialgia, à qual muitos médicos insistem em atribuir uma causa puramente psicológica: "A dor que a senhora diz que sente não existe, ela está na sua cabeça". 

"Ele ainda falou que, se eu não quisesse os cadeados, o jeito seria fazer jejum em quatro dias da semana. E, nos outros três, só beberia água."

Leia mais em: http://noticias.bol.uol.com.br/brasil/2012/11/09/medico-receita-cadeados-para-mulher-conseguir-emagrecer-na-ba.jhtm
"Ele ainda falou que, se eu não quisesse os cadeados, o jeito seria fazer jejum em quatro dias da semana. E, nos outros três, só beberia água."

Leia mais em: http://noticias.bol.uol.com.br/brasil/2012/11/09/medico-receita-cadeados-para-mulher-conseguir-emagrecer-na-ba.jhtm
Sobre uma mulher doente parece sempre pairar a desconfiança em relação à sua sanidade mental. Como disse a médica e professora da Universidade de Barcelona, Carme Valls-Lloret, autora do livro Mujeres invisibles, em uma entrevista a respeito da fibromialgia:

As demandas e queixas das mulheres, em torno de 25% dos casos, são consideradas psicossomáticas, enquanto que as queixas masculinas, qualquer que seja a demanda, são consideradas mais sérias. Por outro lado, nós sabemos que na saúde mental existem muitas encruzilhadas. Que a deficiência de ferro aumenta a ansiedade e que carências de tiroxina aumentam a depressão. Sabemos também que o papel [da mulher] de cuidadora, a discriminação social e no trabalho, assim como a história pessoal, também provocam problemas de saúde mental. [Mas] a saúde pública "soluciona" o problema receitando às mulheres medicamentos psicotrópicos para "silenciá-las".

E então, à base de fluoxetina e Rivotril, obtém-se mulheres calmas, felizes, dóceis e caladas, assim como deve ser.
"Ele ainda falou que, se eu não quisesse os cadeados, o jeito seria fazer jejum em quatro dias da semana. E, nos outros três, só beberia água."

Leia mais em: http://noticias.bol.uol.com.br/brasil/2012/11/09/medico-receita-cadeados-para-mulher-conseguir-emagrecer-na-ba.jhtm
"Ele ainda falou que, se eu não quisesse os cadeados, o jeito seria fazer jejum em quatro dias da semana. E, nos outros três, só beberia água."

Leia mais em: http://noticias.bol.uol.com.br/brasil/2012/11/09/medico-receita-cadeados-para-mulher-conseguir-emagrecer-na-ba.jhtm

[Por hoje, fica esta introdução. Mas aproveitarei o gancho desse caso da paciente baiana para discutir algumas dessas questões de saúde feminina nos próximos posts. Se eu continuar sã até lá.]


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As mulheres e a música - compositoras brasileiras

por Tággidi Ribeiro
 

Desejo mostrar ao mundo, tanto como pode a arte musical, a errônea presunção de que só os homens possuem os dons da arte e do intelecto e de que estes dons nunca são atributos da mulher. 
Maddalena Casulana (1544-1590), compositora renascentista. 
Admito desde já que estou há pouco tempo pensando sobre as mulheres na música e que pesquisei muito pouco sobre. Trago mais de memória uma linha do tempo de figuras femininas, sobretudo cantoras, que fizeram história. Mas esse texto não vai falar sobre as cantoras. Ou, pelo menos, não vai falar sobre as 'apenas' cantoras. Meu foco aqui são as compositoras. As brasileiras.

Pesquisei pouco, mas achei, numa rápida ida ao santo Google esses dois endereços que contêm muito mais coisa do que eu imaginei que poderia encontrar. Obviamente, isso só diz do meu despreparo. Mas vamos lá. Haverá coisa aqui nesse textinho que você não vai encontrar tão facilmente.

Chiquinha Gonzaga
Quando penso nas mulheres compositoras do Brasil, me vem logo à mente Chiquinha Gonzaga. Já foi personagem de minissérie da Globo, razão pela qual gente da minha geração pode se lembrar tão bem dela. Do contrário, saberíamos quem compôs 'Ô abre alas!'? No mais, fora ter sido uma mulher compositora em sua época, foi também absolutamente transgressora, ao não admitir os abusos e traições dos dois primeiros maridos e ao unir-se, aos 52 anos, com um jovem de apenas 16. Embora eu não julgue que uma união com essa diferença de idade seja salutar, o fato é que durante os 36 anos seguintes, até a morte de Chiquinha, ela e seu maior amor permaneceram juntos. Só pra merecer mais respeito, Chiquinha Gonzaga ainda era politicamente progressista e ativa, defensora da causa abolicionista e republicana.

No vazio feminino da composição - ou na falta de memória, história e pesquisa -, depois de mais de 10 anos da morte de Chiquinha Gonzaga, Dolores Duran desponta como cantora. Dolores Duran viveu apenas 29 intensos anos. Morreu em 1959 tendo composto alguns dos maiores sucessos da música apelidada de 'dor de cotovelo', como 'A Noite do Meu Bem'. Compondo com Tom Jobim, é considerada precursora da bossa nova e portanto de tudo que veio na música brasileira como reação à bossa. Uma biografia recém-lançada sobre ela mostra a incrível mulher vinda de família pobre, autodidata e politizada que foi Dolores Duran.

Ali quase ao lado de Dolores Duran, vem outra 'grande dama' da dor de cotovelo: Maysa. Também personagem de minissérie da Globo (e por isso certamente mais conhecida), Maysa foi outra cantora/compositora talentosa que fez história na música popular brasileira.

Tânia Maria
Falei de apenas três nomes femininos da música brasileira em quatro séculos e meio de história, e da década de 1960 até a de 1980 do século passado tenho somente alguns outros poucos para referir: Rita Lee, Suely Costa, Joyce, Marina Lima e Ana Mazzotti. E a Tânia Maria: cantora, compositora e pianista genial que fez toda a carreira dela 'na gringa', porque não teria espaço aqui. 

Bem, quero crer que minha pouca memória e minha falta de conhecimento é que reduzem os números. De qualquer forma, não há como negar, há menos compositoras que compositores no Brasil (e no mundo). E tenho certeza de que vocês leitores deste blog imaginam, como eu, que esse dado se deve ao fato de que as mulheres tiveram seu espaço restrito à casa e foram proibidas de estudar durantes milênios, o que deve ter contribuído um pouquinho para que não seguissem outra 'vocação' que não a de mães e donas de casa.

Por isso, definitivamente, devemos comemorar o que vem acontecendo no Brasil desde a década de 1990. As mulheres aportaram no cais da música, como corpo e voz, mas sobretudo como palavra - criação. Marisa Monte, Cássia Eller, Zélia Duncan, Adriana Calcanhoto, Fernanda Abreu, Vanessa da Mata foram abrindo caminho às demais. As de quase agora: Mallu Magalhães, Maria Gadú, Tulipa Ruiz, Céu, Bárbara Eugênia, Tiê, Ana Cañas e Karina Buhr. Esperamos tantas mais.

Karina Buhr
Tomo a liberdade de findar este post de referências com a Karina Buhr, compositora que toca a dimensão demasiadamente humana do feminino: 'Eu sou uma pessoa má/Eu menti pra você/Você não podia esperar/Ouvir uma mentira de mim/Que pena eu não sou/O que você quer de mim/Se você tiver que escolher entre você e o seu amor/Você escolhe quem?'.


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Apanhando igual mulher: quando a vítima é o homem

por Barbara Falleiros

Não digo que toda mulher gosta de apanhar. 
Só as normais. As neuróticas reagem.
Nelson Rodrigues, macho reaça.

Na semana passada, escrevi sobre os mecanismos da violência doméstica e familiar com base em uma cartilha do Ministério Público de São Paulo. Esta cartilha foi especificamente elaborada para mulheres vítimas de violência. Deste modo, falei a respeito de relacionamentos heterossexuais abusivos em que o homem (companheiro, ex-marido, namorado) apresenta-se como agressor. Recebi então uma crítica evocando as violências, sobretudo psicológicas, perpetradas por mulheres de  comportamento agressivo, que se aproveitam da facilidade de adotar um discurso de vitimização para exercer sobre o parceiro um terror psicológico. Caso verídico, garantia meu interlocutor, e bastante recorrente. Não que eu duvide,  mas há quem identificará neste discurso elementos do masculinismo, movimento contra um suposto sexismo antimasculino. E, de fato, uma das bandeiras do masculinismo é o combate ao que ele vê como um favorecimento legal das mulheres (com a Lei Maria da Penha, por exemplo), além do combate à minimização e à ridicularização da violência contra os homens.

Os masculinistas gostam muito de citar um artigo que saiu na mídia em 2008, com base em estatísticas de um estudo realizado na Unifesp, artigo este que recebeu o título apelativo de "Mulheres agridem mais do que os homens". É só pesquisar no Google para ver que este texto é citado em tudo quanto é página masculinista. Porém, as estatísticas provêm do Primeiro Levantamento Nacional sobre Padrões de Consumo de Álcool no Brasil, que resultou em uma tese de doutorado, defendida em 2009, a ser lida aqui. Ora, os dados da Violência entre Parceiros Íntimos (VPI) analisados pelo autor foram baseados em questionários respondidos por 631 homens e 814 mulheres que perpetraram ou sofreram violência, e são relacionados ao consumo de álcool. As questões diferenciavam a violência leve (empurrar, sacudir, dar tapas, atirar objetos) e a violência grave (dar chutes, mordidas, atirar objetos sobre, queimar, escaldar, agredir sexualmente, ameaçar ou tentar atingir com faca ou arma de fogo). Segundo o autor:

  • O grau de violência nas agressões contra as mulheres tende a ser maior
"Embora algumas evidências apontem para o fato de que as agressões de mulheres contra seus companheiros sejam tão ou mais prevalentes do que as agressões sofridas por elas (Schaefer et al., 1998; Straus,1995; Straus & Gelles, 1990), as mulheres sofrem mais lesões e necessitam de cuidados médicos mais frequentemente do que os homens (Browne, 1993; Morse, 1995; Tjaden & Thoennes, 1998; Stets & Straus, 1990)." (p. 11-12)

  • Em suas respostas, os homens podem ter omitido ou minimizado a violência cometida, enquanto que as mulheres tendem a omitir a violência sofrida
"Surpreendentemente, as mulheres reportaram uma porcentagem maior de episódios de perpetração de violência leve ou grave do que os homens (apesar de que os homens são geralmente mais violentos do que as mulheres). Isto pode resultar do fato de os homens parecerem deixar de relatar a perpetração da violência com mais frequência do que as mulheres (Caetano, Schaefer, Field & Nelson, 2002). Por outro lado, as mulheres podem ter medo de estigmatização, represália e outros resultados negativos caso revelarem experiências de vitimização, o que pode ter contribuído para sua omissão (Miller, Wilsnack & Cunradi, 2000). Em nosso estudo, naqueles que envolveram unicamente a vitimização, a porcentagem de mulheres é maior do que de homens." (p. 91-92, tradução nossa)

Ou seja, mesmo o autor é cauteloso ao apresentar seus dados e confirma, de toda forma, que as mulheres são mais frequentemente vítimas de violência doméstica.

  • A Lei Maria da Penha e os homens agredidos
Como eu disse mais acima, os masculinistas costumam ver na Lei Maria da Penha a prova da desigualdade entre homens e mulheres e das "vantagens" conseguidas pelas mulheres em termos jurídicos. Porém, há poucos dias, houve um certo alarde em torno da aplicação desta lei em um caso de violência doméstica envolvendo um pai e seu filho agressor. Ué, como é que funciona isso? Vou resumir uma boa explicação que pode ser encontrada aqui. É o seguinte: o artigo 129 do Código Penal trata da lesão corporal, seja qual for o sexo do agressor e da vítima. Porém, em 2004, acrescentou-se o 9º parágrafo que diz respeito a situações de violência doméstica, levando em conta as "especificidades que caracterizam [esta violência] praticada contra a mulher". Esta política especial é necessária porque, historicamente, a vítima mulher se encontra em uma situação de vulnerabilidade particular: "observa-se a persistência de algumas características desta situação de violência, tais como relação de dependência econômica e emocional entre agressor e agredida, naturalização e banalização do conflito, despreparo de profissionais atuantes na área de atendimento às vítimas (desestimulando denúncias)".

A gente repete toda semana e vai continuar repetindo: é para os processos históricos que temos que olhar, só eles dão plena significação aos acontecimentos individuais. 

Mas voltando aos homens agredidos. O meu interlocutor falava de uma refinada violência psicológica da parte da agressora mulher. Talvez seja isso: as mulheres [ah, essas bruxas diabólicas! ... Não resisti. Mas não é verdade que, historicamente, as mulheres sejam vistas como manipuladoras e perversas?] talvez elas batam menos só porque são capazes de atordoar mais! Escolha sua arma, não é?


Agora falando sério: é claro que existem homens vítimas de violência doméstica e que esta violência deve nos preocupar. Já me arrependo do sarcasmo das minhas últimas linhas porque, vejam só, minha atitude é um exemplo de comportamento execrável face à violência: eu ironizei o potencial feminino de agredir e o potencial masculino de ser agredido. Tiro no pé. Mas, na verdade, o problema está colocado em termos errados. Não é briguinha de quem sofre mais. E aproveitando para uma ressalva, eu diria que tampouco é uma questão de sexo físico, biológico, ou coisa do tipo: a violência pode acontecer em qualquer uma das variadas configurações possíveis de uma relação conjugal. O que existem são construções de papéis sociais e modos de relacionamento que encorajam ou provocam a vitimização feminina (para estatísticas da violência contra as mulheres, ver por exemplo aqui). Porém, quando sofre violência física ou psicológica por parte da sua companheira, frequentemente o homem também acaba sendo uma vítima do machismo. Por quê? Porque, para o machismo, homem que é homem não leva desaforo. Como bem disse meu interlocutor, o homem que sofre é visto como frouxo. Onde já se viu sofrer por mulher? Onde já se viu apanhar de mulher? Ou, como li por aí, no submundo da internet: "Homem que apanha da mulher não tem que procurar a justiça, tem que procurar onde se vende vergonha na cara". E é assim que, por vergonha, o agredido esconde a situação, reluta em compartilhar seu sofrimento com amigos e família, com medo de ser julgado, nem sequer sonha em buscar respaldo jurídico.

Se nós criticamos a identificação da mulher como sexo frágil, recusamos igualmente a do homem como sexo forte. Reconhecer o homem na sua força e na sua fragilidade é reconhecê-lo como igual. Ainda que historicamente as tendências se desenhem de forma mais polarizada no caso da violência doméstica, não interessa de modo algum ao feminismo colar na mulher a etiqueta de coitadinha e no homem a de vilão. Muito pelo contrário. A violência, de onde quer que venha, precisa ser combatida. Reconhecer o sofrimento masculino, saber que o homem pode ser levado a sofrer, que pode ser ofendido, insultado, agredido e violentado e que a lei deve protegê-lo, tudo isso faz parte da luta pela igualdade.





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Capital erótico my ass 3 - último e tenso

por Tággidi Ribeiro

Esse é o terceiro e último post sobre a entrevista da Catherine Hakim à Veja e está tenso. Muita coisa discutida e ainda a discutir. Leia os anteriores aqui e aqui.

Os tipos de feminismo - “O feminismo é uma ideologia abrangente, contém muitos elementos adversos.”
1. Se você quer entender o feminismo, veja este post da Roberta Gregoli. 
Igualdade entre os sexos - “O mito feminista da igualdade dos sexos é tão infundado quanto a afirmação de que todas as mulheres almejam a total simetria nos papéis familiares, emprego e salário. As feministas insistem que a independência financeira é necessária para a igualdade em casa. Argumentam ainda que a maior parte das mulheres é carreirista, como os homens, e detesta ficar em casa para criar os filhos. Diversos estudos indicam o contrário. A maioria das mulheres prefere ficar em casa em tempo integral quando as crianças são pequenas, pelo menos até elas começarem a frequentar a escola. Um parceiro bem-sucedido torna essa opção mais viável.”
2. É bem interessante que alguém fale de "mito" da igualdade entre sexos. A questão aqui é simples até demais: apesar de homens e mulheres termos cromossomos diferentes, somos igualmente human@s. Não há motivo para sermos tratadas como inferiores, desrespeitadas, pra não termos os mesmos direitos. No mais, as mudanças culturais têm mostrado que, se não somos biologicamente iguais, somos ao menos bem menos diferentes do que imaginavámos. O que é infundado, mesmo, é o mito de que mulher é frágil e fraca. E o mito de que homem que é homem não chora.


3. Pesquisas que abordam aspirações masculinas ou femininas dizem mais sobre em que tipo de sociedade somos criad@s e menos sobre aspirações 'naturais' (aliás, que aspirações são naturais?!). O feminismo é tão pouco difundido (e tão mal compreendido) que a maioria das mulheres e dos homens sequer têm a possibilidade de deixar de repetir padrões.

O marido ideal - “Tornar-se uma dona de casa ‘à toa’, em tempo integral, é uma utopia moderna para a maioria das mulheres. Em estudos realizados em todo o mundo, quando questionadas sobre as características mais valorizadas em um parceiro, as mulheres afirmam preferir homens com recursos, condição que viabiliza a permanência delas no lar.”
4. Não sei que pesquisas realizadas 'em todo o mundo' são essas, mas sei de uma coisa: no mundo quase inteiro, mulheres são criadas para serem mães e para estar dentro de casa. O espaço de fora da casa não é delas, elas não o conhecem. São milênios de confinamento, é pouco mais de um século de feminismo. Até as mulheres ao redor do mundo saberem que o espaço de dentro de casa é mais violento que o de fora, vai levar tempo. Quando acontecer, essa balela do conforto, do trabalho doméstico leve e da segurança que é ter um homem 'provedor' vai se dirimir. E mulheres como nós, que temos o mundo inteiro para nós, e não só nossas casas, serão maioria.

Déficit sexual masculino - “Desejo sexual é uma questão de gênero. As mulheres têm um nível mais baixo de desejo sexual, de forma que os homens passam a maior parte da vida sexualmente frustrados em vários graus. Existe um sistemático e, ao que parece, universal -- déficit sexual masculino. Os homens geralmente querem muito mais sexo do que conseguem, em todas as idades. Assim, a capacidade de atração sexual feminina perante os hormônios deles pode ser uma ferramenta valiosa de que as mulheres se beneficiem. Os homens sempre exploraram as mulheres, razão pela qual o feminismo foi necessário. Nós, mulheres, deveríamos explorar qualquer vantagem que temos sobre os homens, sempre que possível.”
5. Esse trecho da entrevista de Catherine Hakim me dá nos nervos. Como alguém que se diz pensador sério e feminista pode afirmar que mulheres têm menos desejo sexual do que homens? Nós mulheres fomos milenarmente reprimidas, nosso prazer era associado ao MAL. Quando eu era pequena, nos anos 80, ainda se contavam as histórias do tempo em que mulher que sentia prazer era considerada puta pelo marido. Podia perder o marido e acabar indo trabalhar na zona mesmo. Eram as histórias do anos 50, 60. Esse tempo de mulher que gosta de sexo e sente prazer é historicamente e culturalmente ínfimo. A verdade é que sabemos praticamente nada sobre o desejo sexual feminino. E mais ignorantes ficamos se levamos em consideração a batelada de pesquisas fajutas feitas por homens ou mulheres machistas como Catherine Hakim. Felizmente, as histórias que ouço hoje contam que mulheres livres sentem tanto desejo quanto seus parceiros.

6. É impressão minha ou a Catherine Hakim justifica com essa fala a pornografia, a prostituição, o golpe do baú, o teste do sofá? Ou ela diz que devemos excitar a fantasia masculina, mas deixar os homens na mão? Nossa, que ética! Me sinto realmente empoderada... ao dizer que feministas não querem 'explorar' homens, nem vender seus corpos ou falsas promessas sexuais. Feministas acreditam no direito ao prazer, na liberdade dos corpos de homens e mulheres - sem exploração.

Barriga de aluguel - “Se os homens pudessem produzir bebês, essa seria uma das maiores ocupações pagas do mundo. As leis foram inventadas pelos homens para o interesse deles próprios, e não incluem os interesses femininos. Muitas vezes, a legislação impede que as mulheres recebam integralmente os lucros de seus talentos, com valor comercial adequado. A barriga de aluguel, por exemplo, é um fluxo de receita inexplorado e do qual nós, mulheres, podería-mos [sic] nos beneficiar.”
 7. 'Oportunidade de carreira: alugue a sua barriga. Pagamos bem. Obs: não nos responsabilizamos pela saúde física ou mental da barriga após o parto.' Uau, hein?, Catherine Hakim! Nós feministinhas idiotas pensando em incentivar as meninas a serem o quiserem sem medo: atletas, cientistas, políticas, donas de indústrias. E você com essa visão thundercat de como ganhar dinheiro fácil.

Pelo fim da hipocrisia - “Sou uma feminista convicta. Sempre busquei o melhor para as mulheres. Dediquei mais de duas décadas de minha carreira a responder a uma questão: por que as mulheres raramente são as heroínas? Há quem não me entenda, mas o que ofereço é uma nova perspectiva feminista, sem hipocrisia. Muitos dos escritos feministas modernos conspiram a favor das perspectivas chauvinistas masculinas ao perpetuar o desprezo pela beleza e pelo sex appeal das mulheres. O feminismo radical deprecia o encanto feminino. Por que não estimular a feminilidade em vez de aboli-la?”
 8. Então quer dizer que feminilidade é sinônimo de beleza e sex appeal? Qué dizê, quer dizer que é um conceito dado e imutável e é isso: beleza e sensualidade? Quer dizer que feminilidade não é construção sócio-histórica? Quer dizer, também, que justamente esse conceito de feminilidade que vem atravessando séculos não foi o que nos tirou do papel central da história e nos relegou à categoria de adereço? Você quer dizer isso, Catherine Hakim, mesmo?

9. Com beleza e sex appeal exaustivamente explorados, hoje, no mundo inteiro, a maioria das mulheres somos: bbbs, panicats, strippers, coelhinhas, prostitutas de luxo, atrizes pornô, marias-chuteira, marias-gasolina, belas da torcida, as mais belas presidiárias, acompanhantes de luxo, musas, piriguetes. Somos também muito facilmente destratadas, agredidas, assediadas, estupradas e mortas. Mas, quando isso acontece, dizem que a gente tava 'pedindo'.

A liberdade é o único poder.