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Versos e Subversas: Lara de Lemos

Lara de Lemos ao lado de seu amigo e poeta Mario Quintana


São poucos os relatos sobre mulheres aprisionadas pela ditadura brasileira, torturadas. Certamente, foram as mulheres as que mais sofreram com as prisões e torturas posto que, além do horror da violência "usual" dos carrascos, sofriam também da violência própria do machismo, com estupros e interrupção da gravidez (clique aqui para saber mais).Para a ditadura, as mulheres militantes transgrediam a ordem duplamente: por se revoltarem contra a ditadura e também por romperem com os padrões tradicionais de gênero. Eram "culpadas" por serem  "terroristas" e "mulheres", pois ocupavam um espaço público destinado aos homens. Por isso mesmo, nada melhor que publicizar a voz poética de uma lutadora, presa e torturada: Lara de Lemos (1923-2010), jornalista, tradutora e poeta do sul, engajada nas causas políticas de sua época. Lara ficou conhecida por escrever, junto a Paulo Cesar Pereio, o Hino da Legalidade, canção entoada em todo país pedindo a posse do vice-presidente João Goulart que se encontrava suspensa pelos militares. Estabelecido o golpe militar de 64, ela e seus filhos foram presos e ela submetida a tortura. Já fora da prisão escreveu livros de poesia sobre a experiência do calabouço e da luta política, sendo o mais famoso o “Inventário do Medo”. Sua poesia passa, claro, também por sua condição de mulher oprimida (clique aqui para saber mais). Nos poemas abaixo, a terrível experiência do calabouço é retratada de forma direta, seca e forte... acredito mesmo que o "melhor" retrato do pior que já vivemos no Brasil.  

CELAS – 1
Viajo entre túneis de sono
como un cão vadio à procura
do dono.

Viajo em barcos fastasma
onde o tempo retrocede em busca
da alma.

Viajo consultando arquivos
e a memória ilumina rostos
redivivos.

Viajo procurando portos
e me encontro no país
dos mortos.

CELA – 6
A hora dos
capuzes negros
é a hora mais negra
dos prisioneiros.

Descer às cegas
pelas cascatas
apalpando paredes
adivinhando fissuras

Pisando superfícies
escorregadias
de sangue
e urina.

Às cegas.

CELA - 23

Eis que me retornam
vestes, sapatos,
óculos, relógios.

Bolsa povoada
de lenços, moedas,
inúteis estojos.

Despojada até aos ossos
não sei o que fazer
de meus despojos.


CONTA CORRENTE
Para Wanda Maria

CRÉDITO DÉBITO

O creditado de mim o que dei
não foi muito. foi pouco

Quatro sentidos o que nasce
e uma visão: a si se opondo:

além do visgo meu sim, meu não
do lucro minha sina

além do oco meu sangue aguado
do homem de medo.

além do soco A palavra e a
do mundo. mordaça.

SALDO

só o domado viver.
Mais nada.


LEGADO

Para Laury Maciel

Recuso-me a herança
deste poço vazio
deste lodo legado
em negligências.

Engulo a seco e calo.
Aposto em cada poema
— único engenho
ainda não vencido.

Proponho rubros jogos
olhos atentos
para o imaginário.

Ases de puro ouro
— naipes que guardo
para meu incêndio.

(texto e seleção por Jeff Vasques)

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Mais Elena...

por Thais Torres

(Nota: escrevi este post há algum tempo, mas não publiquei. Tanta coisa aconteceu neste meio tempo comigo e com o Brasil que é realmente impressionante como o filme ainda retrata uma identidade feminina tão significativa. Ser mulher ainda continua sendo muito complicado e eu não vi nenhum cartaz sobre tudo o que o filme retrata com tanto lirismo... )

 
Continuo pensando no filme Elena. Como disse Walter Salles, "O filme é de uma beleza incomum e fica entranhado em nós por um tempo". Se aconteceu isso com o Walter Salles, imaginem comigo!? Não é de se surpreender que eu não consiga parar de pensar nas questões importantes que o filme suscita: família, suicídio, culpa, solidão, depressão, morte, elaboração do luto e arte. Não é pouco, mas há algo que para mim parece ainda mais importante: a busca por uma identidade feminina e as particularidades, uniões e sofrimentos que essa busca traz.

Escrevi sobre Elena em um post anterior, mas não consegui explicar qual foi o ponto vital que foi tocado em mim quando assisti ao filme de Petra Costa. Seguindo minha tosca lista apresentada aqui, a questão mais evidente é a luta de uma família - formada por mãe e irmã de Elena. O pai mal é citado - para compreender o suicídio de uma jovem de 20 anos. Lidar com a culpa por não tê-la ajudado a superar a depressão parece ser algo que mãe e irmã precisam lidar todos os dias. 


Mas a grande questão é a elaboração do luto, o que me parece ocorre de duas maneiras no filme. A primeira é através da arte. Afinal, ela faz um filme sobre a irmã, tentado se aproximar dela, conhecê-la e, com isso, talvez não superar de fato a morte de Elena, mas compreender que ela morreu de forma trágica e que isso é algo que jamais vai mudar. 
O filme é construído através de uma estética delicada, sutil, extremamente baseada no lirismo das palavras e das imagens. Além disso, retoma uma referência clássica do suicídio na literatura: a personagem Ofélia. Sem lugar no mundo, já que não é amada por Hamlet com quem se casaria e não tem mais a presença do pai, assassinado pelo príncipe que amava, ela enlouquece e se suicida. A cena de sua morte nem aparece na peça (ou nos filmes ou nas adaptações para TV), mas há várias representações de sua morte. (Uma delas é o quadro de John Everett Millais que postei acima). Afinal, o espectador não consegue deixar de imaginar essa morte trágica e dolorosa.




No filme, Petra Costa aparece boiando em um rio, vestida como uma Ofélia do nosso imaginário moderno.  Logo em seguida, aparece a mãe, com a mesma roupa, na mesma situação. Seguem-se diversas outras mulheres vagando em um rio repleto de figuras femininas, vestidas como Ofélia, tristes como ela, mas não submersas. Vivas e unidas, pois a tentativa de superar o luto parece unir essas mulheres - mãe, irmã e todas que se identificam com a história de alguma maneira - de maneira plástica, sensível, lírica.
E feminina.




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A descarada tentativa moderna de dominação feminina: sobre mídia, estética e valores

por Maria C.

Há uma ideologia perversa rondando a vida das mulheres. Como um vento gelado, um vírus incontrolável, essa coisa entra por todas as frestas, nos alcança por todos os lados, numa espécie de Estado totalitário midiático nazista sei-lá-o-quê. Não dá pra escapar: é o mito da beleza, a ditadura da magreza, da juventude, da perfeição. Mulher que é mulher é linda, jovem, magra, clara, bem cuidada, perfeita.

Não sou autoridade no assunto, nem é o tema, mas durante o nazismo, buscou-se apoio científico, nas ciências naturais da época, a fim de justificar-se a superioridade da raça ariana; da filosofia, utilizando-se inadequadamente os ideais de Nietzsche: seu conceito de super-humano em contraposição ao niilismo (em “Assim falou Zaratruschta”), havendo suposta ligação entre o nazismo e o Übermensch; e ainda, aliada ao uso pesado da mídia, foi utilizada a estética em favor do ideal totalitário. Hitler afirmou que “o maior princípio de beleza é a saúde”. Isso soa tão familiar...

Decaídas as questões políticas, militares e expansionistas, mas persistente o cinismo pseudocientífico e a necessidade de dominação e de criação de uma espécie superior – uma espécie superior de mulheres em relação às outras, as supermulheres, ouso afirmar que estamos vivendo uma espécie de nazismo criado especialmente para nós, mulheres.

Qualquer comercial de TV destinado diretamente ao público feminino confirma a minha tese: “Cuidar das axilas é fácil!” ou então “O que você faz para acabar com as pontas duplas?” Vejam só, as mulheres devem inserir cuidados diários com suas axilas, que não bastam estar depiladas; devem ser claras, lisas, esfoliadas e macias! E as pontas duplas, então? Seus cabelos, pintados, alisados, chapados, hidratados, selados e sei-lá-o-quê devem receber diariamente produtos para evitar as pontas duplas, pois onde já se viu uma mulher ter pontas que não possam imitar uma franja? Nos filmes, nas novelas, nos telejornais e também nos comerciais de TV, todas as mulheres são magras, jovens, tem lindas peles e estão maquiadas, ao passo que os homens são normais: têm gordos, magros, altos, baixos, jovens, velhos, carecas, cabeludos, com dentes brancos ou amarelos.

Existe então uma nova raça, de supermulheres, as mulheres perfeitas, e digo esteticamente perfeitas, e somente estas têm dignidade para serem representadas na mídia? Ou melhor, apenas estas representam as mulheres, de modo que as demais não merecem sequer representação? Somos o terceiro estado pré-revolucionário, acaso? Um alienígena que necessitasse coletar dados sobre a população feminina e partisse da representação midiática sofreria um choque. Não acreditaria na disparidade daquilo que vê na TV e nas ruas. Onde estão as mulheres perfeitas, se perguntaria ele? Vivem no Olimpo? 

A questão é: porque querem nos fazer acreditar que precisamos dos “valores” que nos impõem, que precisamos internalizar estes valores, que necessitamos tanto da transvaloração do que é próprio do ser humano para apropriar “valores” femininos, tão externos e estéticos, a fim de definir o que é uma mulher, ao menos uma mulher de verdade, uma mulher bem sucedida, uma mulher perfeita. Por que de que adianta ter uma bela carreira, ser respeitável em seu meio, mas esteticamente ser considerada uma bruxa velha? É isso o que conta para as mulheres? Segundo aqueles novos valores propriamente femininos impostos pelo ideário anti-feminino (o nazismo feminino de que falo, em sátira), o poder, também inerente ao übermensch, no caso da mulher, é inútil, se ela é feia, ou gorda, ou tem rugas, manchas na pele, eventualmente um cabelo seco ou uma simples unha quebrada. Ela é menos mulher. Em seu tamanho poder lhe debocham pelas costas, onde já se viu uma mulher dessas não fazer as unhas? E por que, querida leitora, eu lhe pergunto, porque nós concordamos com esses editoriais nazi-fascitas em revistas sorridentes, que dizem que devemos pesar 50kg aos 45 anos e, deus nos livre, ter celulite? Por que corremos às lojas de cosméticos atrás dos hidratantes de axilas, dos esfoliantes de cotovelos; das clínicas de estética, dizendo amém, e socorro, sou um lixo humano e não mereço viver pois tenho cílios curtos? 

Porque há uma diabólica conspiração, tão evidente e escancarada, e há tanta gente lucrando com isso, que não nos questionamos mais: mulheres feias não têm representatividade, direitos, nem dignidade: não é mais literário (desgraçado Vinícius), é constitucional e científico, afinal, magreza anoréxica de passarela é saudável, e qualquer 200g a mais é obesidade mórbida. Tudo saúde, e morte aos gordos, porque barriga não é mais um órgão, mas um pecado mortal, uma coisa horrorosa, banida da TV, e isso é sério.

Minha ironia se deve à raiva, ao desprezo mesmo à tamanha tentativa de dominação da força feminina.

A tentativa de confinamento das mulheres no espelho, centradas em seu umbigo é repulsiva. Trata-se de uma estética de destruição, querem que nos rasguemos, nossas próprias algozes, de modo que assim, deixemos o caminho livre para que qualquer um nos explore, e explore qualquer necessidade patética que resolvam nos impingir, tais como hidratar as axilas ou viver de dieta intravenosa, um dogma! A revolta é grande. 

A solução? Diante de uma cultura de dominação forte/fraco, lógico/sentimental, tão arraigada e imposta tão covardemente que acreditamos que se funda na ciência, e é inata (!), é preciso de um movimento contrário de idêntica força, que parta da rejeição desta cultura. Um despertar já seria um começo. Conhecer a verdade e descobrir que não precisamos de nada do que nos dizem já é um passo a caminho da liberdade. Abra sua mente. Diga não. 

Quem sabe?

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Versos e Subversas: A mulher - Amparo Ochoa

A MULHER (A VIDA SE ESVAI, COMPANHEIRA)
(León Chávez Teixeiro, interpretada por Amparo Ochoa)



Abriu os olhos,
pôs um vestido,
e foi devagar pra cozinha.
Estava escuro e sem fazer ruído,
acendeu a estufa e a rotina.
Sentiu o silêncio como um aperto,
tudo começava no café da manhã.

Dobrou a coluna,
soltou um suspiro,
sentiu ridícula a esperança;
ao mais pequeno se lhe ardeu a pança,
rompeu o silêncio,
soltou um choro.
Serviu o esposo,
vestiu os meninos,
trocou as fraldas,
serviu os pães.

Levou seus filhos pra escola;
pensou no cardápio do dia.
Mediu o dinheiro,
comprou verduras.
Contou as cinzas de sua economia.
Esperou na fila por suas tortillas,
carregou Francisco,
olhou a rua.
Por toda parte havia mulheres,
todas compravam e se moviam;
seguiam ilhadas com seus deveres,
lhe recordavam todas à formigas.
Sentiu de repente que eram amigas,
sentiu que todas eram amigas.

Voltou a sua casa, casa alugada,
viu mais amigas desde a entrada.
Deu a Francisco o que brincar,
varreu o chão,
arrumou as camas.
Se viu no espelho,
olhando o branco dos cabelos,
juntou as coisas
pra cozinhar;
cortou as batatas,
as pôs no fogo
e na manteiga as fez chiar.
Agora o cru se transformava,
estava pronto para se almoçar.
A casa inteira com outro aspecto,
de novo ajeitada pra se usar.

Pôs a mesa,
serviu as crianças,
trocous as fraldas,
cortou os pães,
limpou de novo mesa e cozinha,
deu a Mercedes o remédio;
pediu seu turno nos tanques da lavanderia:
bateu vestidos e calças,
olhou ao sol a roupa estendida,
como se ontem já não o fizera.
A mesma esfregação todos os dias,
caminhando de novo o mesmo trecho,
sentiu a vida como prisão,
lhe escapava tudo que havia feito.
Se ia a vida, se ia pelo buraco
como o sebo, no tanque, pelo ralo.

Trocou palavras com suas vizinhas;
houve sorrisos em formação.
Toda a raça em seu beco,
se arrumando enquanto andavam.
Sempre mulheres, cumprindo oficios
que se entretecem sem ter fim.
Serem costureiras, serem cozinheiras,
camareiras e passadeiras;
serem enfermeiras e lavadeiras,
também garçonetes e educadoras.
Muito diligentes faxineiras,
às famílias deixam prontas,
rumo à escola ou para o trabalho
para que possam checar as listas.

Se dava conta de suas vontades
e do cinema sabia nada.
Para eles a vida sempre séria
se afogando na miséria.
Se vai a vida, se esvai pelo buraco
como o sebo, no tanque, pelo ralo.
Foi direto para seu ninho,
sempre pensando passou a roupa.
O que era rasgado deixou cerzido,
tinha um momento para descansar.
Abriu a porta e entrou o marido
também moído de trabalhar.
Pôs a mesa,
serviu a sopa,
para queixar-se não abriu a boca.
Riram juntos e papearam.
Falaram dos filhos e de dinheiro,
das vizinhas, de alguma dor,
dos caminhões e do patrão.
Lavou a louça,
tirou o lixo,
dormiu os meninos,
trocou as fraldas.
Como ar que entra pela fresta,
os dois brincaram com sua ternura.
E então deu a volta na fechadura;
dormiram cedo todos seus males.
Se vai a vida, se esvai pelo buraco
como o sebo, no tanque, pelo ralo.
Se vai, se esvai, companheira,
como o sebo, no tanque, pelo ralo.

(Tradução de Jeff Vasques)






AMPARO OCHOA (México, 1946-1996) foi uma famosa cantora mexicana engajada nas lutas de sua época. Em 1974 gravou um disco de solidariedade com o povo chileno, após o golpe de estado que derrocou, por iniciativa da CIA, o presidente Salvador Allende.Como folclorista, cantou e divulgou canções da tradição revolucionária e popular mexicana.Amparo Ochoa percorreu o continente e ainda o mundo com a sua mensagem e compromisso cativador, convertendo-se na "Voz do México", com destaque para a reivindicação dos direitos das mulheres.

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Manifestações e eleições

por Tággidi Ribeiro



HISTÓRIA é o nome do dia de hoje. Em muitas das mais importantes capitais do país, incríveis ajuntamentos de  gente querendo, clamando por um país diferente. A grande mídia dará ênfase à (pouca) violência proveniente da raiva justificada de alguns grupos. A pergunta não é: por que agem dessa forma? A pergunta honesta seria certamente: como, diante de um cotidiano tão pesado, não agem? Ou: por que, diante de tantas violências cotidianas, agiriam de forma pacífica?

Manifestantes reunidos no Largo da Batata.
Apesar de motivos mais que suficientes para revidar a violência cotidiana sofrida, o que se ouvia em São Paulo muito apropriadamente eram os gritos de "Que coincidência! Não tem polícia, não tem violência!", atestando a pacificidade da manifestação, das reivindicações, dos afetos. Assim como no Ato Contra o Estatuto do Nascituro, do qual também participei, no sábado, na Sé. 

Contra o Estatuto do Nascituro.
Não será pernicioso lembrar, contudo, que enquanto imprensa e governo nos cobram 'paz', é justamente essa que nos é negada. Eu vi, na quinta 13/06, manifestantes gritarem inocentes "Sem violência!" e receberem em resposta bombas e balas de borracha. Sem que nada de mal tivessem feito as mulheres à humanidade, há a possibilidade de que um estuprador conste como pai na certidão de nascimento de uma criança fruto de estupro. Há igual possibilidade de que a soma de dois gametas, ainda fora do útero feminino, tenham tanto ou mais direitos que uma mulher consciente, humana. 

Eu que sou palhaço...
Nosso problema não são os impostos: disso já sabemos. Nossos problemas são a corrupção e a má administração, coisas diferentes, mas bem parecidas, desde que estamos no Brasil. Nossos problemas também são criar uma cultura diferente da do 'jeitinho' e da 'malandragem' e instaurar um coletivo.

É nesse lugar, o do coletivo, que as manifestações de hoje se inserem. O aumento das passagens é coletivo, o trânsito de má qualidade é coletivo, o engarrafamento é coletivo. Coletivos são também os desejos de 'democracia de verdade' e de 'mudar o país'. E, embora 'a ficha ainda não tenha caído', o Estatuto do Nascituro é coletivo.

Não sabemos ainda o que resultará dessa avalanche de protestos. Sei que é muito bom ver e estar com o povo na rua, sentir a energia e a felicidade de cada um, mesmo depois de andar horas. É muito bom saber que nos reunimos por algo legítimo e que não há sombra de fascismo ali. 

Eu, particularmente, espero que esses dias nos apresentem novas lideranças, gentes em que possamos votar nas próximas eleições - gente sem preconceito de raça, cor e sexo e que esteja realmente comprometida com o fim de todas as misérias (em todos os sentidos) desse país. Gente que talvez tenha estado no Congresso hoje - parabéns, Brasília! Gente que esteve em São Paulo, no Rio, em BH, em Vitória, Maceió, Curitiba, Porto Alegre, Belém...

Precisamos urgentemente de novos políticos nesse país, muito dispostos a lutar por novas (nossas) causas. 

Manifestante no teto do Congresso, em Brasília.


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A delicadeza violenta do feminino

por Thais Torres




Começo o post com duas recomendações: visitem a exposição Elles: mulheres artistas na coleção do Centro Pompidou que está no Centro Cultural Banco do Brasil (de 24/05 a 16/07 no Rio de Janeiro. Depois, em São Paulo) e assistam ao filme Elena que está nos cinemas (inclusive nos de Campinas, o que é uma raridade).

Em comum entre a exposição é o filme há o fato de serem ótimas e criativas produções culturais. Não ignoro que cada uma está inserida em sua esfera e dimensão próprias, evidentemente. Há inúmeras diferenças entre as obras expostas no Centro Cultural Banco do Brasil e o filme de uma cineastra jovem como a Petra Costa. De toda forma, não são os pontos divergentes mais óbvios que me interessam, mesmo porque é extremamente complicada essa coisa de atribuir valores e comparar obras de arte de campos tão diferentes.

O que me interessou mais foi a diferença na representação do feminino. Explico.

Logo na entrada da exposição, nos deparamos com este vídeo:



Nele, uma mulher (suponho que seja a própria Marina Abramavic, autora da obra) repete incessantemente as frases "Art must be beautiful" e "Artist must be beautiful" enquanto penteia os cabelos. Ela faz isso por 13 minutos com muita violência, machucando o próprio couro cabeludo e dizendo as frases com uma progressiva angústia. Já é chocante por si só... Acontece que a voz do video ecoa pela sala da exposição o tempo todo, quase que como uma trilha sonora meio macabra para o que observamos. Como uma boa trilha sonora, dá o tom da nossa leitura das obras, o que muda por completo nossa experiência enquanto expectadores.

Abaixo algumas das obras que consegui recolher pela Internet:





Em nenhum momento a exposição passa a ideia de "arte feita por mulheres", como uma espécie de arte de segunda classe, feita por artistas excluídas que precisam desta exposição para sair do anonimato. Eu temia isso quando li a reportagem de capa da revista Bravo deste mês. Felizmente, o tom é a busca por uma linguagem e expressão feminina do que significa o feminino. 

O que me chamou atenção é que essa representação é pautada pela violência. Em uma das salas, já não ouvimos mais a frase angustiada da artista que se machuca porque acredita que a arte deve ser bonita, assim como as artistas. Mas a imagem é ainda pior: uma mulher nua, brinca com um bambolê feito de arame, que corta toda sua pele. Assistem à cena 13 bonecos assombrosos que ali estão "em homenagem à Anistia Internacional". A violência está por toda parte e eu não consegui descrever a sensação que envolve toda a exposição. É preciso visitá-la.

Algo muito diferente ocorre com o filme da jovem Petra Costa. Não que o tema não seja angustiante ou violento. Ao contrário, o filme é um documentário que mistura vídeos caseiros, textos pessoais e interpretações líricas que tentam contar e reinterpretar o suicído da irmã da cineasta. Uma experência bem forte (e pouquíssimo recomendada para um cineminha tradicional no dia dos namorados), triste, dolorosa. 

Chama atenção, no entando, o modo como a história é contada. Segundo a roteirista, atriz e diretora do filme,
Ganhei uma irmã que eu nunca tinha conhecido com tamanha profundidade. Mas logo percebi que não era real, que ela nunca mais iria voltar. Foi um processo de ganhá-la e perdê-la repetidamente, inúmeras vezes. Algo ao mesmo tempo prazeroso e devastador. É como ver a pessoa, querer tocá-la, para no instante seguinte perceber que ela é um fantasma.

A irmã e a mãe de Elena são sobreviventes de um evento trágico e tentam aqui compreender o que aconteceu. E essa compreensão é feita através da arte. O curioso é que quase não há homens no filme, mas isso não é uma espécie de feminismo xiita, mas algo natural, como se não existissem outras pessoas capazes de superar essa morte senão a mãe e a irmã daquela que se foi. Por um acaso essas sobreviventes são mulheres. E acredito que isso torna - talvez inconscientemente, talvez não - essa busca pela superação do luto, uma busca pela representação do feminino e das mulheres que protagonizam a história.

Talvez eu esteja errada nesta interpretação. Mas o que importa é que se trata de um bom filme e que, ao falar de si mesma com sinceridade e profundidade, Petra Costa fala da morte, da culpa e da saudade de maneira universal, atingindo a todos.

(Elena e sua irmã Petra Costa, ainda recém-nascida)

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Mudanças temporárias


Queridxs, aqui é a Roberta para anunciar algumas mudanças temporárias. Mazu, Barbara e eu estamos saindo de licença por motivos profissionais - tese e trabalho, ô tristeza! Mas é só até o final de agosto e depois retornamos com o gás de antes e, se deus quiser, emprego e dinheiro no bolso!

A boa notícia é que as poderosas Tággidi e Thais continuam com seus textos maravilhosos, junto com a nova seção Versos e Subversas encabeçada pelo querido Jeff. 

A outra ótima notícia é que Maria C., autora de alguns dos ótimos Guest Posts que publicamos, passa a colaborar de maneira mais sistemática e teremos mais textos sob o viés jurídico, que é novidade entre as literatas por aqui. Bem-vinda, Maria!

Deixo com vocês um beijo e um cheiro e volto a entrar em contato em setembro, já que me garantiram que existe vida após a tese.


Amém! by PhD Comics

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Versos e Subversas: Para um melhor amor

por Jeff Vasques

     Kate Millet, autora do clássico livro Política Sexual    

PARA UM MELHOR AMOR
(Roque Dalton, El Salvador, 1935-1975)

“O sexo é uma categoria política” 
Kate Millet

Ninguém discute que o sexo
é uma categoria no universo dos casais:
daí sua ternura e suas ramas selvagens.
Ninguém discute que o sexo
é uma categoria familiar:
daí os filhos,
as noites em comum
e os dias divididos
(ele, buscando o pão nas ruas,
nas oficinas e nas fábricas;
ela, na retaguarda dos ofícios domésticos,
na estratégia e tática da cozinha
que permitam sobreviver à batalha comum
talvez até o fim do mês.)
Ninguém discute que o sexo
é uma categoria econômica:
basta mencionar a prostituição,
as modas,
as seções das revistas que são para ela
ou são para ele.
Onde começa a confusão
é quando uma mulher diz
que o sexo é uma categoria política.
Porque quando uma mulher diz
que o sexo é uma categoria política
pode começar a deixar de ser mulher em si
para converter-se em mulher para si,
constituir a mulher em mulher
a partir de sua humanidade
e não de seu sexo,
saber que o desodorante mágico com sabor de limão
e o sabão que acaricia voluptuosamente sua pele
são fabricados pela mesma empresa que fabrica o napalm
saber que os labores próprios do lar
são os labores próprios da classe social a que pertence esse lar,
que a diferença de sexos
brilha muito melhor na profunda noite amorosa
quando se conhece todos esses segredos
que nos manteriam mascarados e alheios.


   

Roque Dalton foi um guerrilheiro el salvadorenho, considerado hoje o poeta maior de seu país e um dos maiores e mais inovadores poetas da américa. Foi assassinado por "companheiros" de sua própria organização de luta, pois seu jeito brincalhão, questionador das ortodoxias e fora dos padões os levaram a acreditar que Dalton era um agente da CIA infiltrado. Kate Millet (EUA, 1934), citada na epígrafe do poema, é uma escritora feminista estadunidense. Sua tese de doutorado, defendida na Universidade de Columbia, é seu livro mais famoso, intitulado Política Sexual. Publicado em 1970, discorre sobre a política patriarcal de controle da sexualidade feminina nos séculos XIX e XX, analisando literatura, pintura e políticas públicas relacionadas ao controle populacional e à definição do papel da mulher nesse período. Publicou diversos outros livros, mas que não foram traduzidos para o português. Você pode baixar o livro "Política Sexual" de Kate Millet clicando aqui

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Guest Post: Sobre o Estatuto do Nascituro


A Maria C., querida leitora e colaboradora aqui do blog, enviou este Guest Post, que não poderia chegar em tempo mais propício, já que ontem, 5 de junho de 2013, o Estatura do Nascituro foi aprovado pela Comissão de Finanças. Maria é advogada e nos traz uma visão técnica sobre o assunto. Leitura fundamental.

Eu realmente amo crianças, e é recíproco: levo muito jeito com elas. Não tenho filhos, nunca estive grávida, mas desejo jamais passar pela experiência de um aborto. Contudo, creio que minhas crenças e opiniões pessoais são irrelevantes para retirar esta opção de toda e qualquer mulher deste país que decida fazê-lo. A pretensão de submetê-la à criminalidade e à clandestinidade é a suprema demonstração de arrogância, de desprezo pelx outrx, sua vida e suas dores, a repugnância total do complexo humano, do humano material – em contraposição ao formal.

Porque a maioria da população deste país, inclusive muitos dos que lerão este post, tacharão de criminosas as mulheres que por razões tão suas realizam um aborto? Podemos nós apontar nossos dedos e dizer que sim, que o que elas tinham em SEU corpo era mesmo um bebê quando a ciência (a autoridade competente, o CFM) diz que se trata de um feto ainda sem capacidade de sentidos até determinado período? As bruxas estão novamente nas fogueiras.


O Estatuto do Nascituro pretende legitimar a mais violenta caça às bruxas, alterar Códigos com sangue de vítimas (femininas, apenas), a pretexto da defesa do direito à vida em potencial – o nascituro, o feto mesmo, que é diferente de uma criança. Não me batam, isso é dito em julgamentos – feto e nascituro ainda não é criança. 

Sua redação primorosa (!) alterará sensivelmente o regramento do nascituro. Atualmente o ser humano adquire personalidade jurídica, que é a capacidade de ser sujeito de direitos e deveres no nascimento com vida.

Contudo, o nascituro tem a salvo diversos direitos, pontuados nos locais adequados no próprio Código Civil (art. 2º) e em leis específicas. Cito a título de exemplo os clássicos alimentos gravídicos, medidas cautelares em expectativa de direitos sucessórios, etc.

Segundo o Projeto de Lei 478/97, art. 3º, o nascituro terá uma penca de expectativas de direitos, em que se prevê especificamente expectativa de todos os direitos à personalidade (?!) e diversos subjetivos (?!) fundamentais e correspondentes deveres dos genitores, sociedade e Estado. Se há expectativa é porque o direito não se incorporou ao patrimônio jurídico, sequer é futuro, é eventual e incerto.

Agora a pior parte, a relação destas impropriedades técnicas com a barbárie a se instaurar: a “coisificação” das mulheres, transformando-as em objeto que serve apenas a um meio, a utilidade de portar o nascituro, e não um ser completo, com um fim em si mesmo.

O art. 13 do Estatuto prevê que o nascituro concebido em ato de violência sexual não sofrerá qualquer restrição a direitos, inclusive à vida. Observa-se que na seção “Dos crimes” não está mais reproduzida a norma do Código Penal (art. 128) que previa a exceção (não-crime ao aborto) em caso de estupro, à gestante ou ao médico que praticou o aborto.

Não se anula apenas a liberdade sexual da mulher – uma garantia fundamental – pois legalmente o Código Penal em 1940 estava se lixando para isso. Extirpa-se sua dignidade enquanto pessoa humana.

O Código Penal visava resguardar a saúde mental, psíquica e até física da mulher vítima de estupro resultante em gravidez, e ainda seu direito “à honra” [de não carregar e criar o fruto de uma concepção criminosa]; o que modernamente é a concretização do direito fundamental objetivo à saúde, à privacidade, à liberdade (ou seja, as normas), decorrentes de sua condição de pessoa humana digna.

Portanto, a opção de aborto em caso de estupro tem raiz na dignidade humana feminina, traduzido no reconhecimento de não ser subjugada a tal ponto de gerar e criar o fruto de uma violência. Ao retirar-se tal possibilidade, retira-se a dignidade da vítima, sem opção. Sua dignidade é trocada por um suposto auxílio financeiro. Ocorre que este não é um crime patrimonial, mas contra o corpo feminino, contra a liberdade sexual (olha ela aí) e contra a dignidade feminina: as coisas não se resolvem com um salário mínimo.

Todos estes direitos fundamentais femininos, se esvaem ante uma única expectativa de direito (que pode ou não acontecer), a expectativa de direito à vida do nascituro concebido no ato criminoso.

Ocorre que o direito à vida não é absoluto, nenhum direito fundamental é. Devem ser ponderados em seus limites e sopesados. E é evidente que há uma desproporção: a retirada de tantos direitos fundamentais já consagrados, já incorporados por mais de seis décadas à dignidade humana feminina [à saúde física, mental e psíquica feminina, à liberdade sexual e reprodutiva] em detrimento de uma perspectiva do direito à vida em expectativa, concebido de ato criminoso – não exercido em liberdade sexual, reprodutiva, digna, etc., é negar a condição de ser humano digno à mulher; é relegá-la a uma espécie política inferior na ordem dos cidadãos. Retomando-se, ela se torna um meio, e não um fim em si mesma.

Alguém está sentindo uma desproporção na proteção entre um e outro? Grita a total ausência de proteção dos direitos fundamentais da mulher, que já falei. Acontece que não bastasse o fato de que não há direito absoluto (nem a vida), existe uma coisa chamada proibição de proteção deficiente; quer dizer que existe uma certa flexibilidade na proteção de direitos fundamentais, dependendo do momento histórico a lei pode prever um limite maior ou menor porque outro precisa elastecer seu limite, mas extingui-lo totalmente da forma como o Estatuto, jamais!

Não fosse isso, há uma antinomia jurídica. O Estatuto cria o bolsa-estupro, trata o estuprador como “genitor”, a mesma denominação atribuída à mãe. O que isso quer dizer? O estupro é um crime mais leve e menos aterrorizante apenas porque pode resultar num embrião? Os fatos que descrevem os crimes devem ser claros, objetivos, direitos quanto às situações que os configuram. Não pode existir uma lei posterior que coloque em dúvida o “quão criminoso configura um fato que define um crime”. 

Da redação do PL, o estuprador se transmuda em genitor, será o provedor da criança e seu orgulhoso pai. Do campo do Direito Penal passa-se diretamente ao Direito de Família, e sem nenhum pudor – e com todo Poder – condena-se a vítima à eterna ligação ao estuprador, numa relação legalmente familiar. Filme de terror.

Há ainda uma incrível inovação, o art. 23 do Estatuto, que prevê o aborto culposo (involuntário). Parem as máquinas. Isso é muito sério. Negligência, imprudência e imperícia, são as situações em que um crime é culposo. Não sou penalista (mesmo), mas é quando você não quis fazer, mas fez assim, sabendo, sem querer. Significa que se você estava grávida e não sabia, e fez algo que por negligência causou o aborto, pode ter uma ficha criminal. Ou se você queria muito ter um filho, engravidou, mas foi descuidada um dia, pode responder por aborto. Ótimo, né?


Outra muito boa do Estatuto, com base neste mesmo art. 23 é que, se você estiver grávida, e concomitantemente com alguma doença, e deliberadamente fizer algum tratamento para se salvar, mas que puder trazer riscos para a saúde do feto, responderá uma ação penal certamente! Coisa de cidadãos livres e dignos, com direito à saúde! Acho mais fácil prepararem câmaras de gás, porque haja lenha pra tanta mulher.

O que me choca é o impacto desproporcional deste 'Projétil' de Lei, tão escancarado! Alguém visualizou um grupo, ou segmento de pessoas que serão desigualmente atingidas, ainda que “não intencionalmente” de outras? Vou ajudar: há possibilidade de algum homem ser criminalizado pela lei? Apenas as mulheres são atingidas, em qualquer e toda situação, sem exceção. Todas as mulheres em idade fértil são criminosas em potencial. Sintam o perigo. Até você, virgem, não saia de casa... ou saia? Não sei, ninguém sabe onde pode morar um agressor, e tristemente falo sério!

O Estatuto não foi deliberado na data prevista (em 08/05/13) pela Comissão de Finanças e Tributação em razão do encerramento dos trabalhos (questão de ordem), segundo o site da Câmara. Significa que será reinserido em pauta (não consta no site), sua tramitação é Ordinária, portanto há Projetos de Tramitação Especial e Urgente nesta Legislatura, que lhe precederão. Na última Legislatura a CFT entendeu que se faz necessária readequação orçamentária para aprovação. Se houver readequação e aprovado pela CFT segue para CCJ (Comissão de Constituição e Justiça), a Comissão que analisa a constitucionalidade do Estatuto. Se esta Comissão entender pela constitucionalidade do Estatuto temo por nossas vidas, honestamente.



Referências:
BRASIL, STF. ADPF n. 54. Pleno. Rel. Min. Marco Aurélio. Pleno. J. em 12.04.2012.
DIMOULIS, Dimitri. MARTINS, Leonardo. Teoria geral dos direitos fundamentais. 3ª Ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2011.
SARMENTO, Daniel. Livres e iguais. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2006.
SARLET, Ingo Wolfgang. Et. al. Curso de Direito Constitucional. 2ª Ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2013.
SARLET, Ingo Wolfang. Constituição e proporcionalidade: o direito penal e os direitos fundamentais entre a proibição de excesso e de insuficiência. Revista da Ajuris. Ano XXXII, n. 98. Jun/2005.

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Nicoles e Sabrinas, Giseles e Grazis

por Tággidi Ribeiro


Esses dias me vi 'obrigada' a explicar a seguinte frase: "Eu gosto dessas meninas. Da Sabrina Sato, da Nicole Bahls." Pois é. Eu falei isso. E, sim, eu gosto dessas meninas. Já me peguei rindo delas, de suas bobagens, da falta de papas na língua, de sua rudeza. Tem uma coisa crua nelas que me é familiar e me faz simpatizar com elas. Acho que também sinto empatia por elas porque sei que são mulheres não respeitadas. São as típicas mulheres pelas quais os homens babam e as meninas gritam no recalque - e vão, namorados, maldizer a vulgaridade das 'mulheres que não se dão ao respeito', das piranhas, vagabundas, putas. 

Uma informação necessária: eu também já as chamei assim e não foi o feminismo que me 'salvou' de vê-las dessa forma; foi, antes mesmo de entrar em contato com o feminismo, a percepção de que, em algum momento de nossas vidas, todas nós somos putas. Putas porque traímos o namorado ou ficamos com o namorado de outra, porque aparecemos com uma saia curta demais, tiramos uma ótima nota, fomos antipáticas, porque usamos argumentos pertinentes em uma discussão ou porque simplesmente não foram com a nossa cara... Em algum momento, por um período breve ou nem tanto de nossas vidas, seremos chamadas de 'puta, vaca, piranha' (nos dirão isso na cara ou não). Acho que, a partir do momento em que entendi isso, eu passei a olhar para as mulheres, sobretudo para essas que eu achincalhava ou que eu via serem achincalhadas, de outra forma. E, claro, não pude deixar de comparar essa facilidade do ódio dirigido às mulheres à simpatia ou 'neutralidade' que eram dedicadas aos homens. Os comportamentos que geram o vilipêndio às mulheres são aceitos com naturalidade se são os homens que os protagonizam.

Verdade, verdade... quando odiamos os homens? Existe ódio aos homens correlato ao ódio que sentimos pelas mulheres (cotidiano, fácil e visceral)? Se existe, porque esse sentimento não se verifica na língua? Quer dizer: porque todo e qualquer xingamento dirigido a um homem parece fraco demais, parece nunca atingi-lo de fato? Dê uma olhada no vídeo abaixo, a partir do minuto 7:15.


Esteja claro que não defendo que passemos a dispensar ao homem o mesmo ódio que dispensamos às mulheres. Imagina! A ideia do feminismo não é rebaixar o homem à mulher (que, sim, ainda é vista como inferior) e sim elevar a mulher ao homem, igualá-los naquilo o mais importante: o estatuto de ser humano. E é justamente aqui que entram as Nicoles e Sabrinas da vida, as que não se dão ao respeito, as putas (e, por extensão, todas as mulheres) - porque é como se elas precisassem (nós precisássemos) de algumas 'qualidades' para alcançar esse estatuto. Elas não são seres humanos a priori (não nos enganemos - não somos). 

Como contraponto a essas mulheres minoradas, há um discurso, um comportamento e uma imagem do que seria a mulher de 'valor'. Na mídia, elas são, por exemplo, Gisele Bündchen e Grazi Massafera, ambas casadas e mães, mulheres discretas, sem arroubos, sensuais em certa medida, lindas. Nós não a chamaríamos de vulgares, mesmo que sejam retratadas seminuas ou usem vestidos provocantes. Nós não diríamos que são burras, ainda que seus discursos sejam vazios. Elas são as 'mulheres que se dão ao respeito', não meros objetos sexuais... Nós não vilipendiamos essas mulheres, elas nos são simpáticas ou 'neutras'. Elas chegam bem perto daquilo que os homens são, com a diferença, salutar, de que homens não precisam casar, ser pais, discretos, algo sensuais, lindos... para serem objeto do nosso afeto e respeito. A outra diferença é que, mulheres que são, Gisele e Grazi a qualquer momento podem tornar-se alvo das bocas do inferno.

É interessante perceber que 'ideologicamente' não há diferenças entre Nicoles, Sabrinas, Giseles e Grazis, pois todas se inserem em lugares esperados para as mulheres. As primeiras são as putas (as fáceis, as indignas, as pra trepar), as outras são as santas (as honestas, as direitas, as pra casar). Esses lugares são lugares de mercado: cada uma delas vende artigos diversos para classes diversas. As primeiras, para classes mais populares; as outras, para classes mais abastadas. Esses lugares também são lugares demarcados culturalmente, corporalmente, nas falas e nas formas. Nicoles e Sabrinas falam 'errado' e seus corpos são musculosos; Giseles e Grazis falam 'certo' e seus corpos são delgados. Nicoles, Sabrinas, Giseles e Grazis são produtos pensados e nós, de uma forma ou de outra, no elogio ou no insulto, os compramos - enquanto sem perceber valoramos as mulheres a partir de uma identificação classista.

Mas, pera lá, se elas estão aí para a manutenção do status quo feminino, dentro de uma divisão de classes, do trabalho e da beleza feita por homens e para homens, porque não deveriam ser, todas, alvo? Simples: porque o alvo deve ser a indústria que as produz, e toda a cultura de uso da mulher - o alvo é sempre o patriarcado.

Para fechar a minha explicação, que começou laaaaá em cima: gosto de Nicoles e Sabrinas porque as vejo não como 'as vagabundas que estão atrás de dinheiro fácil', mas como sujeitos contingenciados pela história, como todos nós: por uma história de milênios de opressão da figura feminina (sobretudo dessa figura associada tão instantaneamente ao sexo); por uma história que sempre 'conspurcou' uma determinada parcela de mulheres para que ocupassem 'o pior lugar', o lugar indefensável, o da mulher 'desonrada', o da prostituta; por uma história de vida que eu não sei qual é, que pode ter sido feliz ou triste, mas na qual certamente também encontram-se os encadeamentos que as levaram a ser 'celebridades' e a ser esse tipo específico de celebridade. O simples fato de permitir ao outro uma história o humaniza - e isso mata em mim o ódio que mataria (ainda que apenas verbalmente) o outro.

Por fim, acho que nós mulheres não podemos nos furtar a pensar o quanto a exacerbação da sexualidade nos corpos de Nicoles e Sabrinas irritam a nossa própria sexualidade. O que quero dizer: assim como muitos homens homofóbicos desejam secretamente os corpos de outros homens, na nossa raiva voltada a esses corpos de mulheres não estaria também o nosso desejo?